Macron recebe família de professor decapitado e lideranças islâmicas enquanto aperta cerco ao radicalismo

Macron se encontrou também com representantes muçulmanos, num momento em que o país fecha o cerco na luta contra o islamismo radical em solo francês, após a decapitação do professor

O presidente francês Emmanuel Macron recebeu a família de Samuel Paty, assim como líderes islâmicos nesta segunda-feira, 19 de outubro de 2020
O presidente francês Emmanuel Macron recebeu a família de Samuel Paty, assim como líderes islâmicos nesta segunda-feira, 19 de outubro de 2020 (Foto: REUTERS - GONZALO FUENTES)
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Da RFI - O presidente Emmanuel Macron recebeu a família de Samuel Paty no Palácio do Eliseu na manhã desta segunda-feira (19) e expressou suas condolências. Macron se encontrou também com representantes muçulmanos, num momento em que o país fecha o cerco na luta contra o islamismo radical em solo francês, após a decapitação do professor.

O chefe de Estado testemunhou seu apoio aos familiares deste professor de história e geografia, assassinado na sexta-feira, que havia mostrado caricaturas de Maomé aos seus alunos em uma aula sobre liberdade de expressão, gerando uma forte reação de alguns dos pais dos alunos.

O Eliseu diz que discutiu com a família a organização da homenagem nacional que lhe será prestada quarta-feira (21).

Além disso, Macron recebeu no Palácio do Eliseu, também nesta segunda-feira os representantes do Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM). O ministro do Interior, Gerald Darmanin, também participou do encontro.

Três dias após o assassinato do professor Samuel Paty, o governo prometeu, ao final de um Conselho de Defesa realizado na noite de domingo (18), respostas políticas "no curto e médio prazo" e anunciou na manhã desta segunda-feira uma série de operações contra os movimentos islâmicos.

Ação rápida contra extremistas

O chefe de Estado pediu, no domingo, "que ajamos rapidamente e que não haja trégua para aqueles que se organizam para se opor à ordem republicana". Pelo menos 231 pessoas acusadas de radicalização serão expulsas do território francês.

“Diante daqueles que buscam um motivo para este crime desprezível evocando as caricaturas do profeta do Islã, reafirmamos que nada, absolutamente nada, pode justificar o assassinato de um Homem”, reagiu na noite de sexta-feira (16) para sábado (17) no Twitter o Conselho Francês do Culto Muçulmana (CFCM).

Na sexta-feira, durante o  breve discurso proferido em Conflans-Sainte-Honorine (Yvelines), Emmanuel Macron prestou homenagem ao professor, assassinado "porque ensinava, porque defendia a liberdade de expressão, a liberdade dos alunos de acreditar e não acreditar ".

Direita pressiona o governo

Por coincidência, a direita francesa tem a oportunidade de debater uma de suas principais medidas contra o islamismo radical: o Senado analisa nesta segunda-feira um projeto de lei, elaborado pela maioria da casa, que visa incluir na Constituição a primazia das regras da República sobre convicções religiosas ou de minorias étnicas.

“A República está em perigo como raramente esteve”, declarou o presidente do Senado, Gérard Larcher (Os Republicanos, de direita), no início da tarde no congresso das Regiões da França, criticando “a falta de coragem coletiva” que levou ao o assassinato de Samuel Paty na sexta-feira.

O texto foi preparado e colocado na ordem do dia muito antes da decapitação, em Yvelines, do professor de história que havia mostrado a seus alunos as caricaturas de Maomé.

Princípio da laicidade

Desde então, cada campo político multiplica suas propostas sobre a questão. Emmanuel Macron, que apelou à "união" contra o "obscurantismo e a violência", deverá alcançar resultados concretos.

O primeiro artigo do projeto de lei pretende consagrar, no artigo 1º da Constituição francesa, o princípio segundo o qual “nenhum indivíduo ou nenhum grupo pode tirar proveito da sua origem ou da sua religião para se isentar da regra comum”.

O segundo artigo obriga os partidos políticos a respeitarem o princípio da laicidade, da mesma forma que os princípios da soberania nacional e da democracia, com o objetivo de excluir os partidos comunitários do financiamento público concedido aos candidatos.

Referendo para mudar a Constituição

Mesmo que a esquerda se oponha, a aprovação desse projeto pelo Senado é dada como certa. Mas não basta ter a maioria no Senado: para ser adotado definitivamente, o texto precisa ser aprovado nos mesmos termos pela Assembleia Nacional, dominado pela maioria presidencial (centro), e depois votado por referendo.

Outros parlamentares de direita também exigem a mudança da Constituição. O deputado Eric Ciotti quer, por referendo, "colocar no coração da nossa República um secularismo exigente", assim como Xavier Bertrand, que deseja consultar os franceses para "consagrar o princípio da laicidade ao mesmo nível da igualdade, da liberdade e da fraternidade".

"Libertar o Islã da França das influências estrangeiras"

O próprio governo está trabalhando em um projeto de lei contra o separatismo, que deve ser apresentado no dia 9 de dezembro no Conselho de Ministros e pode ser reforçado após o assassinato do professor.

Emmanuel Macron falou sobre os principais eixos da proposta no último dia 2 de outubro: escola obrigatória a partir dos três anos (o ensino em casa, que favorece o ensino religioso, será descartado), obrigação de neutralidade reforçada nos serviços públicos, entre outros pontos que causam polêmica na França.

O chefe de Estado também anunciou que queria "libertar o Islã da França das influências estrangeiras", treinando imãs no país ou mesmo incentivando as mesquitas a ficarem sob o regime da lei de 1905, que controlaria ainda mais seu financiamento.

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