Mercedes Ponce de Leon ao 247: “Consumo de cannabis não subiu no Uruguai”

Desde 2014, quando a Lei da Cannabis foi promulgada no Uruguai, o número de consumidores não aumentou – ao contrário do que supõe a vã filosófica dos que se opõem à liberação; é o que diz, nessa entrevista exclusiva ao 247, a uruguaia Mercedes Ponce de Leon, 32 anos, usuária desde os 14 e uma das fundadoras da Expocannabis; "O tabu é que gera atração", diz ela; no entanto, o tráfico também ainda não foi extirpado; "O narcotráfico ainda opera no Uruguai. Vai continuar operando por um tempo até que toda a implementação seja completada", afirma, embora diga que "hoje em dia o narcotráfico perdeu no Uruguai quase 23 mil usuários de cannabis; leia a íntegra da entrevista

Desde 2014, quando a Lei da Cannabis foi promulgada no Uruguai, o número de consumidores não aumentou – ao contrário do que supõe a vã filosófica dos que se opõem à liberação; é o que diz, nessa entrevista exclusiva ao 247, a uruguaia Mercedes Ponce de Leon, 32 anos, usuária desde os 14 e uma das fundadoras da Expocannabis; "O tabu é que gera atração", diz ela; no entanto, o tráfico também ainda não foi extirpado; "O narcotráfico ainda opera no Uruguai. Vai continuar operando por um tempo até que toda a implementação seja completada", afirma, embora diga que "hoje em dia o narcotráfico perdeu no Uruguai quase 23 mil usuários de cannabis; leia a íntegra da entrevista
Desde 2014, quando a Lei da Cannabis foi promulgada no Uruguai, o número de consumidores não aumentou – ao contrário do que supõe a vã filosófica dos que se opõem à liberação; é o que diz, nessa entrevista exclusiva ao 247, a uruguaia Mercedes Ponce de Leon, 32 anos, usuária desde os 14 e uma das fundadoras da Expocannabis; "O tabu é que gera atração", diz ela; no entanto, o tráfico também ainda não foi extirpado; "O narcotráfico ainda opera no Uruguai. Vai continuar operando por um tempo até que toda a implementação seja completada", afirma, embora diga que "hoje em dia o narcotráfico perdeu no Uruguai quase 23 mil usuários de cannabis; leia a íntegra da entrevista (Foto: Gisele Federicce)

Por Alex Solnik, do 247 - Desde 2014, quando a Lei da Cannabis foi promulgada no Uruguai, o número de consumidores não aumentou – ao contrário do que supõe a vã filosófica dos que se opõem à liberação.

É o que diz, nessa entrevista exclusiva ao 247, a uruguaia Mercedes Ponce de Leon, 32 anos, usuária desde os 14 e uma das fundadoras da Expocannabis. "O número de usuários de cannabis não cresce desde 2011 no Uruguai. Portanto, desde que se instalou a discussão em torno do tema já se deixou de incrementar o número de usuários. O tabu é que gera atração".

No entanto, o tráfico também ainda não foi extirpado. "O narcotráfico ainda opera no Uruguai. Vai continuar operando por um tempo até que toda a implementação seja completada".

Mas os efeitos da novidade já podem ser sentidos. "Hoje em dia o narcotráfico perdeu no Uruguai quase 23 mil usuários de cannabis. É um golpe grande para o narcotráfico". Além disso, "ainda há uma substância proibida, a cocaína, cuja venda é controlada pelo narcotráfico, e que continua operando, mas com muito menos êxito".

Cannabis não é só para fumar. "Há gente que coloca cannabis em cremes, fazem azeite de cannabis, extrato de cannabis... não necessariamente azeite de cozinha... e esse extrato de cannabis tem propriedades medicinais e se utiliza em várias patologias".

Mercedes revela a existência, em nosso corpo, de um sistema chamado endocannabinóide: "A cannabis tem efeito sobre a pele, sobre a parte neurológica, muitas áreas do nosso corpo estão conectadas com essa planta. Temos todo um sistema em nosso corpo que recebe informações da cannabis. Todos os órgãos do corpo têm receptores de cannabis".

Mercedes, fale um pouco de você

Eu sou uruguaia, sou produtora de eventos. Desde 2004, mais ou menos, comecei a militar pela regulamentação da marijuana. Fui buscando informações em várias partes do mundo, viajei a vários países, voltei ao Uruguai em 2013, quando se aprovou a lei, no final de 2013 para trabalhar na expo-cannabis, que começou em 2014. A ideia surgiu na raiz da regulamentação. A expocannabis é uma plataforma de informação e articulação entre todos os atores envolvidos na indústria da cannabis e do cânhamo. E também trabalha com divulgação de informações e conhecimento científico. Uma vez por ano, em dezembro, ocorre uma exposição física, com participação de todos envolvidos na indústria da cannabis e do cânhamo no Uruguai.

Você conhece a cannabis há quanto tempo?

Eu tinha 14 anos quando comecei e 18 quando eu comecei a fumar todos os dias. Tive épocas de amor ao cannabis. Aos 18 eu consumia bastante.

Por que você se interessou por esse tema? Havia também no Uruguai um grande problema de narcotráfico, como no Brasil? E como a sociedade uruguaia recebeu essa novidade?

Em dezembro de 2013 se votou a lei da cannabis no Parlamento, em 2014 se promulgou a lei. O primeiro que se implementou, à diferença do que ocorreu em outros países, a primeira razão para a regulamentação foram questões de direitos humanos porque antes a lei permitia consumir cannabis, mas não permitia nem comprar, nem vender, nem plantar... então para você fazer algo legal tinha que fazer algo ilegal. Os usuários de drogas eram criminalizados e não estava claro qual era a quantidade para uso pessoal. Em 2014 é implantada a regulamentação do consumo da cannabis recreativo. Criou-se o Instituto de Regulação e Controle da Cannabis (IRCCA), que é responsável por controlar tudo o que diz respeito ao tema. Primeiro se organizou o registro de auto-cultivadores para consumo em clubes: entre 15 e 45 pessoas podiam abrir uma associação civil, sem fins lucrativos, que é um clube. Hoje há 63 clubes funcionando que têm o máximo de 45 sócios e a implementação está sendo muito positiva. É possível consumir cannabis de muito boa qualidade, cultivado por plantadores experientes. Depois o governo fez o registro dos auto-cultivadores que se habilitam no correio e podem cultivar até seis plantas em flor, e hoje há mais de 7 mil registrados. Por último, se implementou, a 19 de julho passado a venda em 16 farmácias, com 5 mil registrados previamente. E começou de forma excelente. Havia filas nas farmácias. Os estoques acabavam no mesmo dia. Uma semana depois já eram 8 mil registrados. E um mês depois eram mais de 12 mil.

Quantos consumidores de marijuana há no Uruguai?

Muitíssimos.

Muito mais do que os números de inscritos nos diversos programas, não é? E por que os outros não participam?

Para comprar em farmácias se estima que poderiam se inscrever 60 mil pessoas.

Quantos uruguaios fumam marijuana?

É muito difícil calcular. É a terceira substância mais consumida, depois do álcool e do tabaco.

Dá para dizer que o tráfico acabou no Uruguai?

Isto é um processo. O narcotráfico ainda opera no Uruguai. Vai continuar operando por um tempo até que toda a implementação seja completada. Hoje em dia o narcotráfico tem muito menos mercado. Se você somar os 7 mil auto-cultivadores, os 12 mil registrados nas farmácias e 63 clubes com 45 pessoas cada um... hoje em dia o narcotráfico perdeu no Uruguai quase 23 mil usuários de cannabis. É um golpe grande para o narcotráfico. Em 2016 a polícia apreendeu pouco mais de 4 toneladas de marijuana. Se somarmos o que é permitido consumir hoje, que são 40 gramas por mês em um ano são 10 toneladas mais ou menos consumidos legalmente.

Quem estabeleceu essa cota de 40 gramas por mês? É um cigarro por dia, mais ou menos...você considera suficiente? Você acha possível fumar um só por dia?

Eu acho que é possível. A gente pode consumir o que a gente quer. Depende. Se você faz um grande, é pouco. Mas se faz vários pequenos, um grama é muito. O estado colocou esse limite na lei porque dizem que um usuário que consome mais de 40 gramas mensais é um usuário-problema. E há medidas na lei para a família atuar nesses casos.

E qual é o limite para quem cultiva em casa?

O limite são seis plantas em flor.

Isso equivale a quanto?

Depende do tamanho da planta. Há plantas que podem conter três quilos e outras, 100 gramas.

Como a imprensa está tratando do tema? O que se publica nos jornais uruguaia acerca dessa regulamentação?

Como em todos os países, tem aqueles jornais com olhar mais conservador e outros com olhar mais progressista. A regulamentação agora está sofrendo um bloqueio financeiro, é o que imprensa está discutindo agora. No geral, a imprensa respeita o experimento que está em curso no Uruguai.

E a população, principalmente a classe média, como reagiu às medidas? O clima social no país melhorou depois da regulamentação?

Não podemos esquecer que ainda há uma substância proibida, a cocaína, cuja venda é controlada pelo narcotráfico, e que continua operando, mas com muito menos êxito.

Você acha possível regulamentar também o consumo de cocaína no Uruguai?

Oxalá. Estamos mostrando com a lei da cannabis que o problema não é a substância. Hoje em dia a cocaína que se consome é de péssima qualidade, os usuários acabam consumindo algo que não querem, acarreta problemas de saúde, falta informação, se fosse regulamentado o seu consumo o consumo seria muito menor e a segurança do consumo seria maior.

Depois da regulamentação aumentou o número de consumidores de cannabis?

Segundo informações da imprensa o número de usuários de cannabis não cresce desde 2011 no Uruguai. Portanto, desde que se instalou a discussão em torno do tema já se deixou de incrementar o número de usuários. O tabu é que gera atração. Quando um tema deixa de ser tabu e entra nas discussões dentro de casa, na imprensa, e as informações circulam livremente os números mostram que os usuários diminuem em vez de aumentar.  

A classe média está aceitando as novas medidas e discute a questão na hora do jantar?

Sim. Não só a classe média, como a classe alta e a baixa discutem a respeito em casa, na rua, nos bares. As pessoas ficam sabendo que cannabis não é só para fumar, a partir dela se fazem azeites, cremes, extratos que produzem sensação de bem-estar.

As pessoas usam cannabis em comida?

Há gente que coloca cannabis em cremes, fazem azeite de cannabis, extrato de cannabis... não necessariamente azeite de cozinha...e esse extrato de cannabis tem propriedades medicinais e se utiliza em várias patologias. Provou-se cientificamente que num cérebro desenvolvido a cannabis favorece o retardamento da deterioração e ajuda como tratamento paliativo de dores... também ajuda em enfermidades como o glaucoma... a aneroxia... os sintomas de câncer...

O extrato é consumido oralmente?

Há muitos extratos de cannabis que p0dem ser preparados de várias maneiras, desde um azeite essencial até um azeite com extrato. O extrato pode ser feito em casa mesmo ou em laboratório. Ele pode ser consumido oralmente, em gotas. Os cremes podem ser aplicados diretamente na pele e são absorvidos pelos poros. Servem para contraturas, psoríases, porque cannabis é muito bom para a pele. Esses extratos não são produzidos no Uruguai, quem quer tem que comprar nos Estados Unidos. Você conhece o sistema endocannabinóide?

Não.

A cannabis tem efeito sobre a pele, sobre a parte neurológica, muitas áreas do nosso corpo estão conectadas com essa planta. Temos todo um sistema em nosso corpo que recebe informações da cannabis. Se chama sistema endocannbinóide. Assim como temos o sistema nervoso, o sistema digestivo, temos um sistema chamado endocannabinóide que modula muitas funções em nosso corpo. Está na raiz de tudo.

Quais órgãos fazem parte desse sistema?

Todos os órgãos do corpo têm receptores de cannabis.

O nosso organismo pede cannabis? É por isso que vicia?

Mas cannabis não vicia. Quem vicia é a mente humana. A cannabis não tem dependência física. A heroína, sim, tem dependência. A cocaína também. A cannabis, não.

Há relatos de pessoas que quando param depois de consumirem durante muitos anos a cannabis passam a sofrer pesadelos enquanto dormem.

Não há nenhum estudo científico que diga que cannabis traz pesadelos. A cannabis trabalha no sonho. Eu fumo cannabis e à noite, quando vou dormir, não me lembro de nada. Não tenho uma imagem. Não sonho nada. Durmo profundamente. Mas outras pessoas têm as melhores aventuras durante o sono se elas fumam. Mas não pesadelo. O pesadelo está na minha cabeça.     

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