Morre Michael Parenti, um dos maiores críticos do imperialismo e da propaganda de guerra nos EUA
Intelectual marxista e autor de obras clássicas sobre mídia, poder e desigualdade, ele influenciou gerações com sua escrita direta e combativa
247 – Michael Parenti, cientista político, historiador e um dos intelectuais marxistas mais influentes dos Estados Unidos no pós-guerra, morreu neste sábado, 24 de janeiro de 2026, aos 92 anos. Conhecido por seu estilo acessível e pela crítica contundente ao imperialismo, à concentração de riqueza e ao papel da mídia na legitimação da violência estatal, Parenti deixa uma obra que marcou gerações de estudantes, militantes e leitores no mundo inteiro.
Nascido em Nova York, em 1933, em uma família trabalhadora ítalo-americana, Parenti construiu uma trajetória acadêmica sólida antes de se tornar um dos mais conhecidos analistas críticos da política norte-americana. Formou-se no City College of New York, cursou mestrado na Brown University e concluiu doutorado em Ciência Política na Universidade Yale. Ao longo da carreira, lecionou em universidades e também atuou como conferencista, consolidando-se como uma voz dissidente em meio ao discurso dominante em Washington.
Um autor popular contra o consenso oficial
A força de Michael Parenti esteve em sua capacidade de transformar temas densos em argumentos claros, sempre apoiados em história, economia e análise institucional. Em seus textos, ele insistia em um ponto central: a democracia liberal, tal como praticada nos Estados Unidos, opera sob o comando de interesses corporativos, mascarando a dominação de classe por meio de eleições, propaganda e controle ideológico.
Em vez de tratar injustiças como “falhas do sistema”, Parenti defendia que elas eram resultado do próprio funcionamento estrutural do capitalismo, sobretudo em sua face imperial, marcada por guerras, sanções, golpes e intervenções.
Uma obra que enfrentou o poder
Entre seus livros mais conhecidos estão Democracy for the Few, referência na crítica ao sistema político norte-americano, Inventing Reality, sobre a indústria da informação e o papel da mídia na fabricação do consenso, e Blackshirts and Reds, em que analisou a ascensão do fascismo e a máquina de anticomunismo que moldou a política do Ocidente durante o século 20.
Parenti também escreveu sobre temas como militarismo, manipulação política da história, violência imperial, racismo estrutural e desigualdade econômica, sempre apontando para o que considerava o núcleo do problema: a submissão das instituições à lógica do lucro e ao poder das elites.
Legado de coragem intelectual
Embora muitas vezes marginalizado pela academia tradicional e pelo circuito editorial dominante, Michael Parenti ganhou enorme relevância popular justamente por contrariar o “bom senso” fabricado pela mídia corporativa e por denunciar a normalização da guerra como instrumento de dominação.
Seu legado permanece como uma referência indispensável para todos que buscam compreender como se estruturam o poder político e a propaganda em sociedades contemporâneas — e por que tantas injustiças são tratadas como inevitáveis, quando na verdade são produzidas por escolhas de classe e interesses econômicos.
Com sua morte, desaparece uma das vozes mais firmes da crítica anti-imperialista nos Estados Unidos, mas sua obra segue viva como ferramenta de reflexão, indignação e luta.