Movimento estudantil renasce com força no Chile

E tem como bandeira principal a educação pública de qualidade

Movimento estudantil renasce com força no Chile
Movimento estudantil renasce com força no Chile (Foto: REUTERS/Ivan Alvarado)

Do Opera Mundi – Ao menos 139 pessoas foram presas no Chile durante 14 manifestações que ocorreram simultaneamente nas principais cidades do país nesta quinta-feira (23/08). Os protestos foram organizados por estudantes secundaristas que pediam mudanças no sistema educacional, e contaram com apoio de associações de estudantes universitários.

Segundo os carabineiros (polícia militar chilena), ao menos 18 oficiais ficaram feridos nos confrontos. Novos protestos estão programados para a próxima terça-feira (28).

Os principais enfrentamentos entre manifestantes e policiais ocorreram em Santiago, onde os estudantes afirmam ter mobilizado dez mil pessoas. O governo alega que nenhum dos protestos contava com autorização oficial para ser realizado e que, em todo o país, as manifestações reuniram apenas oito mil pessoas. 

O ministro da Educação, Harald Beyer, disse que a maioria dos estudantes quer voltar às aulas e que os estudantes não estão seguindo seus dirigentes. Imediatamente, a porta-voz da Aces (Assembleia Coordenadora de Estudantes do Ensino Médio), Eloísa González, imediatamente respondeu ao ministro através de sua conta no Twitter: "Beyer tem razão: as bases não seguem os dirigentes, são os dirigentes que seguem suas bases".

Para Gabriel Boric, presidente da Fech (Federação dos Estudantes do Chile), "o governo parece que não aprendeu nada desde o ano passado. Beyer, junto com os demais ministros, apostam no desgaste dos estudantes. Hoje respondemos a eles com unidade, todos juntos pelo mesmo objetivo.

"Dizem que não temos proposta, isso é falso. Que não temos vontade de dialogar, isso é falso. Vamos continuar nos mobilizando, porque enquanto o governo segue com a visão de curto prazo, nossa convicção vai seguir crescendo", completou o líder estudantil em coletiva de imprensa em Santiago.

Governo

O governo, por sua vez, responsabilizou o movimento pelos confrontos. "Os dirigentes [dos protestos] não cumpriram a promessa de não interromper o trânsito e forçaram o desvio de mais de 40 linhas do transporte coletivo, além de causar danos à propriedade pública e privada", disse o chefe de segurança da região metropolitana de Santiago, Gonzalo Díaz del Río.

Beyer recuou nesta sexta-feira (24), afirmando que algumas reivindicações dos estudantes poderão ser aceitas. “Me parece uma boa idéia a de criar uma agência de fiscalização para a Educação”. No entanto, adiantou que, em muitos pontos, não haverá avanços para negociações. “Como por exemplo, a gratuidade da Educação Superior. Há outros, como o tratamento diferenciado na educação pública e a particular subvencionada que tampouco compartilhamos. Estamos dispostos a entregar mais fundos à educação pública. Nisso, há vários pontos que poderemos coincidir nossas visões”, disse Beyer nesta sexta-feira em um programa na Rádio Duna.

As razões

Os estudantes chilenos lutam desde o ano passado por uma educação pública e gratuita, com qualidade. Além disso, reivindicam que o governo central passe a administrar diretamente a educação nos ensinos primário e médio, e não mais pelos municípios, como ocorre atualmente. Em nível universitário, eles buscam o fim do lucro como o objetivode muitos centros privados de ensino, e dos altos custos dos cursos, que deveriam ser financiados com créditos do sistema financeiro.

O governo respondeu com ofertas de crédito mais baratas, mais bolsas de estudos e uma reforma tributária que é debatida no Congresso, que busca arrecadar até um bilhão de dólares para a Educação, mas se nega a promover as mudanças estruturais do sistema que são exigidas pelos estudantes.

As manifestações eclodiram quando o governo do presidente Sebastián Piñera não aceitou as demandas dos secundaristas. As mobilizações recomeçaram na semana passada, com a invasão de prédios públicos e de estabelecimentos educacionais.

Em 2011, uma série de manifestações convocadas por estudantes chilenos mobilizou o país, atraiu outros setores da sociedade e chamou a atenção da comunidade internacional.

Pesquisa

Segundo uma sondagem do CEP, divulgada na terça-feira, a educação é uma das principais preocupações dos chilenos. Só 12% da população acredita que o governo está agindo “bem ou muito bem” neste setor, enquanto 57% acreditam que a atuação do Executivo de Piñera é “ruim ou muito ruim”. Cerca de 30% apoiam o movimento estudantil.

O percentual é de cinco pontos a menos doque no ano passado, no entanto, permanece melhor do que a aprovação ao governo, de apenas 23%, e do próprio presidente Píñera, com 27%.

 

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