Muito barulho por nada

O que leva bilhes de pessoas a acompanharem uma cerimnia que no muda nem mudar a vida de ningum, a no ser a dos noivos?

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Por Dario Palhares

 

247 – Faz tempo, muito tempo, que a expressão “rainha da Inglaterra” é sinônimo de alguém que, apesar da pompa e circunstância, não apita lhufas. A perda de poder da monarquia britânica teve início com a Magna Carta, que em 1215 cortou as asinhas do rei João, e se aprofundou com a Revolução Inglesa. Esta guerra civil, de 1642 a 1649, custou a cabeça, literalmente, de Carlos I e encheu a bola do Parlamento. Trezentos e sessenta e dois anos depois do fim daquele conflito, a ocupante do trono da terra de William Shakespeare, Elizabeth II, é uma figura decorativa que somente em tese tem o poder de destituir o primeiro-ministro – este, sim, o verdadeiro mandachuva do reino.

Ora, se a Casa de Windsor, a rigor, nada mais representa do que as ruínas de um poder imperial há muito perdido, cabe a pergunta: por que diabos metade do planeta acompanhou, na manhã desta sexta-feira, o casamento do príncipe William – o reserva do reserva de uma rainha que não manda nada – com uma plebeia, a jovem Kate Middleton? E mais: por que órgãos de comunicação dos quatro cantos do planeta, incluindo este Brasil 247, estão dedicando caudalosas e maçantes reportagens sobre o enlace de duas criaturas que, no máximo, poderão gerar notícias (?) em colunas e veículos especializados em celebridades, futilidades, frivolidades e absolutas inutilidades?

 

Os britânicos tem lá suas razões para festejar a boda real. Aliás, diga-se, nada menos do que 67% deles são favoráveis à manutenção da monarquia e só 36% discordam da utilização de recursos públicos para financiar o casório e o rega-bofe. O motivo? Saudades do tempo em que o sol nunca se punha sobre o império britânico, cujo símbolo maior era o rei ou a rainha de plantão. Nostalgia das vitórias sobre a Invencível Armada espanhola, os exércitos de Napoleão, da ocupação de boa parte da África, da exploração da Índia e da China, do entesouramento do ouro das Minas Gerais via Portugal etc.

 Os súditos de “sua majestade” se encontram hoje numa situação semelhante à vivida pelos torcedores do Santos no início da década passada. Os aficionados de outros times chamavam os peixeiros de “viúvas de Pelé”, por conta da escassez de títulos após a aposentadoria do maior jogador de futebol de todos os tempos. A partir de 2002 – com o surgimento de craques como Diego, Robinho, Elano, Neymar, Ganso etc. –, o clube voltou a reforçar sua sala de troféus, dando aos seus seguidores o direito de se intitularem “namorada(o)s dos Meninos da Vila”. Os britânicos, no entanto, seguem na condição de “viúvas do império”. E o que é pior: sabem muito bem que as “divisões de base” da monarquia não vão mudar tal quadro, até porque, não custa repetir, não apitam nada.

Mas e quanto ao interesse do resto do planeta? Por que bilhões de pessoas – brasileiros, argentinos, americanos, guatemaltecos, bolivianos, indonésios, gregos, turcos, armênios etc. etc. – passaram horas diante de suas TVs acompanhando o casamento de William e Kate? Bem, tirando alguns gatos pingados que ainda simpatizam com a monarquia – aí incluída a famigerada Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, a TFP –, a esmagadora maioria dos telespectadores e leitores que se deliciaram com a boda é guiada por um imaginário coletivo. Tal ideário atribui a reis, rainhas, príncipes e congêneres virtudes e poderes dignos de contos de fada e, também, o status de “chiques” e “sofisticados” – percepção que não resiste a uma análise de dez minutos sobre qualquer fase da vida do príncipe Charles, primeiro aspirante ao trono britânico.

É por força desse imaginário tosco e mambembe que de tempos em tempos surgem nas telas dos cinemas tolas versões sobre a velha lenda de Robin Hood, sempre estreladas por canastrões eméritos, como Kevin Costner e Russel Crowe. E é sobre ele que surgiram contos contemporâneos da carochinha com aparência rebuscada, caso da trilogia composta por “O Hobbit”, “O Senhor dos Anéis” e “O Silmarillion”, de autoria do britânico John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973), uma legítima “viúva do império”.

Encadernação vistosa feita para iletrados, essa subcultura tem tudo a ver com o culto em torno do “grande evento internacional” desta sexta-feira. À boda, aliás, cabe como uma luva o título de uma comédia do grande William Shakespeare encenada pela primeira vez entre 1598 e 1599: “Much Ado About Nothing”, ou seja, “Muito Barulho por Nada”.


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