Na China, Mourão ratifica sua própria agenda diplomática

Em reunião com o vice-presidente chinês, Wang Qishan, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou a centralidade do país asiático para as relações comerciais brasileiras; "Procuramos manter as relações comerciais saudáveis e de cooperação econômica e tecnológica entre o Brasil e a China", disse; reportagem de Hélio Rocha, correspondente do 247 na China

Na China, Mourão ratifica sua própria agenda diplomática
Na China, Mourão ratifica sua própria agenda diplomática (Foto: Adnilton Farias / VPR)
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Por Hélio Rocha, correspondente do 247 na China - Em encontro nesta quinta-feira (23) com o vice-presidente chinês, Wang Qishan, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão (PRTB), manteve suas afirmações reiteradas durante toda a passagem pela China, afirmando a centralidade da potência asiática para as relações diplomáticas e comerciais brasileiras. "Procuramos manter as relações comerciais saudáveis e de cooperação econômica e tecnológica entre o Brasil e a China, como a venda de jatos pela Embraer e de produtos agrícolas, contando com investimentos chineses em infraestrutura e tecnologia", afirmou o vice-presidente, em reunião no Grande Salão do Povo, que contou com a presença de dezenas de comissários de Governo dos dois países.

Durante todo o encontro, Mourão frisou ser o Brasil um parceiro histórico da China, que é, por sua vez, estratégica para o desenvolvimento do país. A tônica de seu discurso, inclusive, vai de encontro à bússola sem norte da diplomacia brasileira sob Jair Bolsonaro (PSL) e seu chanceler Ernesto Araújo. Mourão, porém, não pontuou em seu discurso dois aspectos importantes: o primeiro é ser a Embraer uma empresa quase não mais brasileira, visto já ter sido criada a joint-venture com a Boeing, americana; a outra é as relações sino-brasileiras terem sido abaladas em 1964 pelo mesmo golpe militar que ora defendem ele e seu cabeça de chapa, Bolsonaro. A crise pernamente do Governo João Goulart (PTB, 1961-1964) começou, inclusive, por uma viagem feita pelo presidente à China que despertou nas classes altas e médias conservadoras do Brasil o "medo do comunismo".

"Temos uma relação diplomática de 45 anos, o que faz da República Popular da China um parceiro tradicional e fundamental das relações diplomáticas e comerciais brasileiras", afirmou o vice-presidente, em tom oficialesco e sem acrescentar informações às que já estão colocadas à mesa: o Brasil estuda aderir a Nova Roda da Seda, capitaneada pela China para espalhar investimentos em infraestrutura por todo o mundo, e igualmente não cederá à pressão da guerra comercial dos Estados Unidos contra o gigante asiático.

Por fim, Mourão entregou a Wang Qishan uma carta de Bolsonaro se comprometendo a manter e aprofundar as relações diplomáticas com a China, além de ter prometido uma visita do presidente ao país no segundo semestre.

Vice estabelece "diplomacia independente"

A tomada de decisões por Mourão, ou pela pela correlação de forças políticas que ele representa, em sentido conflitante com aquele imposto por Bolsonaro, seus filhos, o ministro das Relações Internacionais e o guru Olavo de Carvalho, denota um caminho independente escolhido e posto em prática pelo vice-presidente. Tal postura costuma ser um dos sinalizadores de que uma eventual queda do presidente afigura-se no horizonte.

Pressionado por empresários, municípios e estados brasileiros, muito dos quais já iniciaram junto à China suas tentativas de estabelecimento de agendas diplomáticas também independentes, o Governo Bolsonaro mostra sinais de esfarelamento na doutrina diplomática de Mourão, que busca no pragmatismo a manutenção dos negócios brasileiros e das parcerias para modernização de sua rede de comunicações e melhorias em sua infraestrutura. Tal iniciativa ficou latente em sua defesa da Huawei, ameaçada pela guerra comercial norte-americana, e por sua sinalização de adesão à Rota da Seda.

Agora, após cinco dias em solo chinês, Mourão retorna ao Brasil e deve se reunir com Jair Bolsonaro.

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