Na ONU, China se opõe ao uso da força para reabrir estreito de Ormuz
Proposta em votação prevê medidas para garantir navegação, mas gera divisão entre potências e amplia temor de escalada no oriente médio
247 - A China manifestou preocupação com a possibilidade de uso da força para reabrir o Estreito de Ormuz, enquanto o Conselho de Segurança da ONU se prepara para votar uma resolução sobre o tema nesta sexta-feira. A informação foi divulgada pelo Global Times.
O estreito, uma das principais rotas marítimas do mundo para o transporte de petróleo, foi fechado em meio à escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. A proposta em análise no conselho busca garantir a retomada da navegação, mas enfrenta resistência de membros permanentes como China, Rússia e França.
Segundo uma versão da resolução obtida pela Associated Press, o texto autoriza o uso de “medidas defensivas” para assegurar a passagem de embarcações. No entanto, uma versão anterior previa que os países poderiam utilizar “todos os meios necessários”, incluindo ações militares, o que gerou forte oposição diplomática.
Durante reunião do conselho, o embaixador chinês na ONU, Fu Cong, alertou para os riscos de legitimar o uso da força. Ele afirmou que autorizar tal اقدام “legitimaria, essencialmente, o uso ilegal e abusivo da força, o que inevitavelmente levaria a uma escalada ainda maior da situação e acarretaria graves consequências”. O diplomata também pediu que o órgão “aja com cautela” e contribua para a desescalada por meio do diálogo.
Pequim reiterou que não apoia ataques do Irã contra países do Golfo, mas condena ações indiscriminadas contra civis e alvos não militares, defendendo que a segurança das rotas marítimas seja preservada sem intensificar o conflito.
Em conversa com a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, o chanceler chinês Wang Yi reforçou que decisões do conselho não devem servir de “cobertura legal” para operações militares nem agravar a crise.
A posição chinesa é compartilhada por Moscou. O embaixador russo na ONU, Vassily Nebenzia, declarou que a proposta “não resolve o problema” e defendeu o fim das hostilidades como solução efetiva. Ele ainda pediu que Washington e Tel Aviv “parem de brincar com fogo”.
Já o presidente francês, Emmanuel Macron, considerou irrealista uma operação militar para forçar a reabertura do estreito, após o presidente dos EUA, Donald Trump, pressionar aliados a assumirem maior responsabilidade pela segurança das rotas marítimas.
Analistas ouvidos pelo Global Times avaliam que autorizar o uso da força pode ampliar o conflito. Zhu Yongbiao, especialista da Universidade de Lanzhou, afirmou que “o caminho certo para a resolução ainda reside na obtenção de um cessar-fogo e, em seguida, na abordagem da questão por meios políticos”. Ele também disse que “a causa principal da questão relativa ao Estreito de Ormuz reside nos ataques dos EUA e de Israel contra o Irã” e acrescentou que “as partes que iniciaram a guerra devem arcar com maior responsabilidade”.
O debate no conselho também expõe divisões entre os membros não permanentes. Segundo o New York Times, há divergências sobre a viabilidade prática da proposta liderada pelo Bahrein, que ocupa a presidência rotativa do órgão em abril.
Especialistas apontam que uma eventual missão militar conjunta enfrentaria obstáculos logísticos e políticos, como a definição de contribuição de tropas e divisão de responsabilidades em caso de retaliação iraniana. “Essa abordagem na minuta não é racional nem realista”, disse Zhu.
Enquanto isso, o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou para a deterioração da situação no Oriente Médio e pediu o fim imediato da “espiral de morte e destruição”.
Para analistas internacionais, o fechamento do estreito é consequência direta da guerra em curso. Ali Vaez, do International Crisis Group, afirmou ao New York Times: “Tratam uma crise política como se pudesse ser resolvida à força”.