“Não há compreensão da importância do Mercosul”

Quem afirma é Samuel Pinheiro Guimarães; Diplomata deixou o cargo de alto representante geral do  Mercosul em meio à crise política no Paraguai, mas diz que turbulência não influenciou sua decisão

“Não há compreensão da importância do Mercosul”
“Não há compreensão da importância do Mercosul” (Foto: Wilson Dias/ ABr)
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Felipe Prestes _ Sul 21- Gerou especulações o pedido de renúncia do diplomata brasileiro Samuel Pinheiro Guimarães do cargo de alto representante geral do Mercosul bem em meio à crise política do Paraguai. Em conversa com Sul21, Guimarães negou que sua saída tenha qualquer relação com a crise, embora em um determinado momento tenha dito “acredito que não”, deixando em aberto esta possibilidade. “A reunião do Conselho era o momento oportuno para minha renúncia”, garantiu.

Samuel Pinheiro Guimarães afirmou que as razões para sua saída estão todas no relatório que ele apresentou ao pedir a renúncia. No documento, ele qualifica o atual momento do bloco como “claudicante”. O diplomata aponta a necessidade de mais reuniões entre os presidentes dos países e de maior convergência entre o trabalho de cada área governamental com suas correlacionadas nos vizinhos. “Não há uma compreensão da importância estratégica do bloco para a América do Sul”, disse.

Em conversa de cerca de 20 minutos, o diplomata abordou estes e outros entraves do Mercosul. Também falou sobre o ingresso da Venezuela, o golpe no Paraguai e na falta de interesse da grande imprensa do Brasil com o bloco. “Não tem nenhum interesse em que o Mercosul seja um sucesso. Procura sistematicamente dizer que o Mercosul é um fracasso”.

Sul21 – Gostaria de falar da sua saída do Mercosul.

Samuel Pinheiro Guimarães – Acho que não é necessário. Os motivos estão no relatório em que comunico a renúncia.

Sul21 – Então, não teve qualquer relação com a situação do Paraguai?

Samuel Pinheiro Guimarães – Não, não tem nenhuma relação com o Paraguai. Eu já tinha decidido antes.

Sul21 – Pelo momento em que ocorreu, a situação do Paraguai não foi um estopim para sua saída?

Samuel Pinheiro Guimarães – Não foi, não. Acredito que não, porque era o momento da reunião do Conselho onde eu tinha que apresentar meu relatório. Então, era o momento oportuno para eu apresentar minha renúncia.

Sul21 – Era uma coisa que o senhor amadurecia há bastante tempo, então.

Samuel Pinheiro Guimarães – Sim.

Sul21 – Como é que o senhor analisa as medidas que foram tomadas pelo Mercosul, a suspensão do Paraguai sem sanções econômicas?

Samuel Pinheiro Guimarães – A suspensão do Paraguai decorre de se ter verificado naquele país um golpe, em que foi deposto um presidente eleito diretamente pelo povo por um Congresso que é eleito por um sistema de listas, onde as pessoas não propriamente votam. Não receberam voto popular. Este Congresso é dominado por partidos tradicionais paraguaios, que se aproveitaram de procedimentos feitos de última hora para promover a deposição do Presidente Lugo. Então, a sanção foi a suspensão. Não havia interesse dos outros países de causar um prejuízo ao próprio povo paraguaio com sanções econômicas. O Paraguai é um país mediterrâneo, subdesenvolvido, com baixos índices sociais de toda ordem.

Sul21 – A entrada da Venezuela causou controvérsia. Como o senhor analisa? Talvez fosse melhor esperar o fim da suspensão do Paraguai?

Samuel Pinheiro Guimarães – O fato objetivo é que o ingresso da Venezuela tinha sido já, de início, aprovado pelo próprio Paraguai, no protocolo de intenções. As negociações com a Venezuela, do ponto de vista técnico, já terminaram desde 2006. E o Senado paraguaio vinha impedindo o ingresso da Venezuela no Mercosul. O Senado do Paraguai talvez jamais viesse a aprovar o ingresso da Venezuela, tendo em vista sua composição altamente conservadora. Naturalmente, há um interesse muito maior de fissura política na América do Sul, de impedir o ingresso da Venezuela no Mercosul e de eventualmente derrubar o Presidente Chávez. Esses interesses vinham impedindo o ingresso da Venezuela. Com o Paraguai suspenso, por estar em um regime considerado não-democrático pelos outros três estados, os outros estados podem perfeitamente aceitar a Venezuela. Há uma preocupação muito legalista com o ingresso da Venezuela, mas essas pessoas consideram que não houve golpe no Paraguai. Na realidade não estão preocupadas com o Paraguai, mas com a entrada da Venezuela no Mercosul.

Sul21 – Qual a importância da entrada da Venezuela no Mercosul?

Samuel Pinheiro Guimarães – Em primeiro lugar, a Venezuela é um país extremamente rico em recursos naturais, com um mercado grande, 20 e poucos milhões de habitantes. É o país com as maiores reservas de petróleo do mundo neste momento, à frente da Arábia Saudita. Então, há um interesse muito grande que este país volte à órbita norte-americana. O ingresso da Venezuela no Mercosul protege ela de golpes de estado que poderiam ocorrer.

Sul21 – E comercialmente?

Samuel Pinheiro Guimarães – No caso da Venezuela, o Brasil teve superávit de US$ 3 bilhões no ano passado. A Venezuela tem um processo de desenvolvimento, de construção de sua infraestrutura, de seu parque industrial, e até mesmo de sua agricultura. E nisto ela depende da cooperação de países como Brasil, Argentina, Uruguai. A própria Venezuela, até pouco tempo, fornecia petróleo em condições favorecidas ao Paraguai.

Sul21 – Pelo que se depreende do relatório, o senhor sentiu que os estados membros do Mercosul fazem pouco esforço para que o bloco seja mais efetivo. É isso mesmo?

Samuel Pinheiro Guimarães – Acho que não há uma compreensão da importância estratégica do bloco para a América do Sul. Não há uma compreensão do que deve ser o Mercosul, de forma alguma.

Sul21 – A grande imprensa brasileira costuma apontar o protecionismo argentino como principal fator para que o bloco não engrene. Pelo seu relatório, o senhor tem uma visão diferente.

Samuel Pinheiro Guimarães – Totalmente diferente. O comércio entre os países do bloco se multiplicou por dez, muito mais do que a expansão do comércio exterior destes países. E é um comércio qualitativamente superior, porque a maior parte das exportações do Brasil, mas também dos outros países, dentro do bloco é de produtos industrializados. Enquanto que nossas exportações para a Europa e para a China é de produtos primários. Temos tido superávit extraordinário com a Argentina nos últimos anos. Não há uma compreensão de como deve ser o comércio nem como deve ser o desenvolvimento econômico dos países da região.

Sul21 – O senhor fala no relatório que Chile, Colômbia e Peru estão impossibilitados de participar do Mercosul.

Samuel Pinheiro Guimarães – Eles não podem participar, porque tem acordos de comércio não só com os EUA, mas com muitos outros países, então eles não podem participar da Tarifa Externa Comum. Também não podem ter políticas industriais comuns, porque estão impedidos pelos acordos que assinaram. Nós temos interesse pela cooperação econômico com eles, mas eles não podem fazer parte do Mercosul pelas opções que eles adotaram.

Sul21 – O senhor diz que é ruim para potências externas a existência do Mercosul. O senhor vê potências operando para desestabilizar o bloco, a partir do que está acontecendo no Paraguai?

Samuel Pinheiro Guimarães – Não, não tem nenhum… Agora, como eu disse no relatório, não há interesse nenhum das grandes potências, nem dos grandes blocos de países, que se fortaleçam outros blocos, porque preferem negociar com países individualmente. Então, para a União Europeia é muito melhor negociar com um país isolado do que com um país que faz parte de um bloco. Isto é normal. Assim como os EUA, depois de um certo período, teve posição forte em relação à União Europeia. É mais fácil negociar com a Bélgica isoladamente do que com a UE.

Sul21 – Mas logo que deu o golpe já surgiram possíveis negociações de acordo entre o Paraguai e potências.

Samuel Pinheiro Guimarães – Há dentro dos próprios países do Mercosul, grupos que pretendem se alinhar com países de fora.

Sul21 – O senhor vê neste isolamento do Paraguai uma possibilidade de eles deixarem o Mercosul?

Samuel Pinheiro Guimarães – Eles têm todo o direito. O Paraguai é um país soberano. Eles podem ter esta ilusão.

Sul21 – No relatório o senhor diz que falta difusão de notícias sobre o Mercosul. Que ações o senhor destacaria que foi realizada pelo Mercosul e que não foram devidamente divulgadas?

Samuel Pinheiro Guimarães – Vou lhe dar dois exemplos. O Paraguai é proprietário de metade da Usina de Itaipu. No entanto, até hoje falta luz periodicamente na capital paraguaia, porque não uma linha de transmissão entre a usina e Assunção. Com os fundos do FOCEM está sendo construída – não é empréstimo, é de graça – uma linha de transmissão a um custo de US$ 500 milhões. Isto vai transformar a economia paraguaia. Vai permitir que o Paraguai se industrialize, porque sem energia não há indústria. Isto é uma coisa importantíssima que nunca foi divulgada. Está sendo construída a linha de conexão elétrica entre Brasil e Uruguai, que permite resolver os problemas de energia do Uruguai, que são também importantes. Está sendo recuperada toda a rede ferroviária do Uruguai, que é extremamente importante para o transporte de madeira. Isto não se diz nos jornais. O que se noticia são pequenos incidentes, retenção de mercadorias. Mesmo assim, o comércio é extremamente elevado.

Sul21 – O senhor acha que a grande imprensa não tem muito interesse no Mercosul?

Samuel Pinheiro Guimarães – Não, a grande imprensa não tem nenhum interesse em que o Mercosul seja um sucesso. Procura sistematicamente dizer que o Mercosul é um fracasso. Deveriam ficar satisfeitos com a suspensão do Paraguai. Não ficam satisfeitos por causa do ingresso da Venezuela, não por causa do Paraguai. A grande imprensa tem uma visão diferente sobre a economia internacional, tem uma visão tradicional, tem uma visão que corresponde à das grandes potências, de total liberdade de comércio, e assim por diante. Então, um grupo de países que procura negociar numa posição mais forte com os EUA não interessa à grande imprensa. Acham que o Brasil deveria negociar sozinho e, portanto, mais fraco.

 

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