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Neonazista acusado de ordenar ataque que matou brasileira começa a ser julgado em Portugal

Português é apontado como mentor virtual de massacres no Brasil e responderá por incentivo a homicídios, crimes de ódio e exploração ilegal online

Giovanna Bezerra da Silva chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos (Foto: Reprodução)

247 -  O cidadão português Miguel Ângelo, acusado de incentivar e coordenar ataques violentos pela internet — incluindo o atentado que resultou na morte da brasileira Giovanna Bezerra da Silva — começou a ser julgado em Portugal nesta quinta-feira (19). O caso ganhou repercussão internacional por envolver radicalização online, extremismo neonazista e cooperação policial entre Brasil e Europa. As informações foram publicadas pelo jornal O Globo, em reportagem do jornalista Gian Amato.

Segundo a investigação do Ministério Público português, o jovem, hoje com 18 anos, teria atuado como mentor virtual de diversos ataques planejados no Brasil enquanto ainda era menor de idade. Utilizando o codinome “Mikazz”, ele administrava grupos online voltados à disseminação de ideologia neonazista, incentivo à violência extrema e organização de atentados.

Mentor virtual de ataques
De acordo com a acusação, Miguel Ângelo mantinha o grupo chamado “The Kiss (TKS)”, criado para difundir propaganda supremacista e conteúdos criminosos em diferentes redes sociais. No ambiente virtual, eram compartilhados materiais envolvendo pornografia infantil, automutilação, maus-tratos a animais e discussões sobre massacres escolares.

As autoridades portuguesas afirmam que o grupo funcionava como espaço de recrutamento e influência psicológica sobre adolescentes vulneráveis. A investigação concluiu que o acusado orientava seguidores sobre estratégias, escolha de alvos e formas de execução de ataques violentos.

Em 23 de outubro de 2023, um adolescente brasileiro anunciou dentro do grupo que realizaria um ataque na Escola Estadual Sapopemba, na zona leste de São Paulo. O atentado terminou com a morte da estudante Giovanna Bezerra da Silva, de 17 anos, baleada à queima-roupa, além de deixar outros três alunos feridos.

O crime foi transmitido ao vivo em perfis ligados ao grupo virtual, reforçando a suspeita de coordenação direta do mentor estrangeiro.

Influência considerada decisiva
O Ministério Público de Portugal sustenta que o autor do ataque não teria capacidade de planejar sozinho a ação. Para os promotores, a influência exercida por Miguel Ângelo foi determinante para a execução do crime.

O julgamento envolve acusações de incentivo a sete crimes de homicídio — um consumado e outros seis na forma de tentativa ou planejamento. Três ataques adicionais teriam sido evitados após autoridades brasileiras interceptarem mensagens suspeitas.Além disso, o réu responde por associação criminosa, pornografia envolvendo menores, apologia à violência, maus-tratos a animais e incitação ao ódio e ao suicídio.

Cooperação internacional
As investigações foram conduzidas em parceria entre a Polícia Judiciária de Portugal e a Polícia Federal, que compartilharam provas digitais e rastreamento de atividades online consideradas essenciais para a acusação.Em comunicado anterior, a Unidade Nacional de Contraterrorismo da Polícia Judiciária afirmou:“Através de ideias violentas e extremistas, dava conselhos quanto ao modus operandi (...) na preparação e prática dos crimes. Foi na sequência destes comportamentos que veio o ataque numa escola de Sapopemba, resultando na morte de uma jovem de 17 anos”.Segundo a autoridade portuguesa, a investigação teve caráter urgente para identificar e interromper atividades virtuais que incentivavam atentados e radicalização juvenil.

Estratégia da defesa e impacto do caso
A defesa do acusado deve contestar parte das provas produzidas no Brasil, argumentando sobre a validade jurídica de elementos obtidos fora do território português. O julgamento deverá analisar principalmente o grau de responsabilidade criminal de influenciadores digitais em crimes cometidos por terceiros.

O processo ocorre em meio ao aumento de crimes de ódio e à preocupação crescente com a atuação de grupos extremistas online na Europa e na América Latina. Especialistas apontam que o caso pode estabelecer precedentes sobre responsabilização penal por radicalização digital e incitação indireta à violência.

Enquanto o julgamento avança, familiares da vítima e autoridades brasileiras acompanham o desfecho do processo, visto como um dos mais emblemáticos envolvendo terrorismo doméstico, extremismo virtual e cooperação internacional contra crimes digitais.