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O continente

Venezuela no Mercosul é a consequência lógica da deposição no Paraguai. Pelo menos na lógica da América do Sul, um continente com candidatos a herói demais e pudor de menos

"Era morte de parente em cima de morte de parente, guerra sobre guerra, revolução sobre revolução. Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo."
(O continente, Érico Veríssimo)

O continente de Érico Veríssimo ia até o Rio Uruguai, fronteira do Rio Grande do Sul, outrora Continente de São Pedro. É o mais próximo que pretendo (e que qualquer brasileiro, argentino ou uruguaio deveria) chegar dessa história da deposição de Fernando Lugo, no Paraguai. Mas os limites na fronteira nunca ficaram muito claros, certo?

O debate sobre a legitimidade do impeachment sofrido pelo ex-bispo é inócuo. Não precisa ser golpe para ser ruim, nem o fato de ter sido embasado pela Constituição significa que foi bom. Se pretendiam dar um ar de legalidade à queda de Lugo, os parlamentares paraguaios se equivocaram ao seguir a lei ao pé da letra.

Erro de principiante. Sabe como é, democracia recente, a exemplo da vizinhança. Alguém lembra o que ocorreu com o primeiro presidente brasileiro eleito pós-ditadura? O processo de impeachment contra Fernando Collor também foi político -- e a absolvição do Supremo por insuficiência de provas, anos depois, o comprova.

A apatia do povo paraguaio na defesa de Lugo indica que o presidente deposto não fazia lá um bom governo -- ou pelo menos um pelo qual valesse lutar. Ainda assim, enquanto o Paraguai é punido pelos pares por "quebra da ordem democrática", uma Venezuela governada há mais de década por um golpista reformado entra no Mercosul, essa eterna tentativa de qualquer coisa.

Faz sentido. Pelo menos na lógica sul-americana, que, na ânsia de impor o que parece certo, permite aos supostos bons fazer o mal e proíbe aos pretensos maus fazer o bem, a depender da avaliação de quem está mandando -- vai ver é a história da humanidade, mas com um número exagerado de candidatos a herói e uma espantosa ausência de pudor.

Começamos atrasados e, na tentativa de acertar o passo, é como se não conseguíssemos sair do lugar. Houve um momento, no início de 1869, em que a Guerra do Paraguai foi declarada como encerrada, registra o primeiro volume de "O tempo e o vento". Alívio e festa no Rio Grande do Sul, pelo menos até chegar o desmentido. O conflito só terminaria oficialmente no ano seguinte. Ou não.

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