O estilo Bush de Obama

Criado pelo ex-presidente, Ato Patritico, que permite at assassinatos, continua valendo e usado para justificar a ao contra Bin Laden

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Claudio Julio Tognolli – O Procurador-Geral dos EUA, Eric Holder, anunciou nesta terça-feira a defesa irrestrita do Ato Patriótico, criado pelo presidente George W. Bush. “Não podemos ser complacentes com o terrorismo”, disse. A declaração de Holder, feita por volta das 11 da manhã de hoje, tenta botar uma pedra sobre as discussões da legalidade da operação que matou Bin Laden. Veja a íntegra da fala de Holder:

http://www.talkradionews.com/quicknews/2011/5/3/holder-i-hope-patriot-act-is-reauthorized.html

Agentes da CIA volta-e-meia experimentam sensações de serem 007’s, com permissões eventuais para matar. Na academia, em Langley, aprendem, no papel, tudo sobre a Ordem Executiva 11905, assinada pelo presidente Gerald Ford (1974 - 1977), e que estabelece os limites da participação de agentes da CIA em planos de assassinato. “Nenhum funcionário do Governo dos Estados Unidos deve se envolver, conspirar ou promover assassinatos políticos”, diz a ordem:

http://en.wikipedia.org/wiki/Executive_Order_11905

Mas, na prática, sabem que podem fazer uso e abusos do Ato Patriótico. Sob George W. Bush, o Congresso americano aprovou um pacote legislativo gerado pelo temor aos terroristas, 45 dias após o 11 de setembro sem nenhuma consulta à população. O significado da expressão Patriotic (Provide Appropriate Tools Required to Intercept and Obstruct Terrorism) explicava a intenção do governo Bush: gerar ferramentas necessárias para interceptar e obstruir atos de terrorismo. Além de tornar “legais” assassinatos, o Ato Patriótico também gerou a prática chamada “rendition”.

A melhor tradução para o português de “rendition” é “rendição extraordinária, sem advogados”. Por essa prática de rendition, suspeitos de terrorismo eram levados para locais desconhecidos. E passavam a não ter direitos de verem seus advogados. Eram extraditados pela CIA, sem o acompanhamento do caso por advogados.

O mensageiro através do qual foi possível chegar a Bin Laden, diz-se agora, teria sido um protegido do cérebro do 11 de setembro, Khaled Sheikh Mohammed, e um assistente de confiança de Abu Faraj al Libi, o número três da Al-Qaeda, capturado em 2005. Divulgou-se também nesta terça-feira que Michael Hayden, o ex-diretor da CIA sob a presidência de George W. Bush, estimou que o governo Obama utilizou informações obtidas de certos detidos "de grande importância" durante interrogatórios realizados em prisões secretas da CIA, como a de Guantánamo. Desde sua inauguração, já passaram pela ilha 775 prisioneiros, classificados como “inimigos combatentes”, sem acusação, processo ou julgamento. Entre os presos, 17 eram menores de 18 anos. A defesa de Eric Holder do Ato Patriótico mostra uma guinada em prol da política externa de segurança adotada por George W. Bush.

Ambivalência

Barack Obama adotou, pela primeira vez em seu mandarinato, a ambivalência: anunciou nas entrelinhas que não quer mais saber do Afeganistão, três dias antes da  morte de Bin Laden -- e da suposta incapacitação da Al Qaeda. Foi na tarde de 28 de Abril que Obama, secamente, estabeleceu o general David Petraeus, comandante das forças dos EUA no Afeganistão, como o novo diretor da CIA, a central de inteligência dos EUA.  Petraeus vai substituir o atual diretor, Leon Panetta, só em julho. Como ler isso? Simples: Obama considerava, já antes da morte de Laden, o Afeganistão como um fait accompli. E a nomeação do general  David Petraeus, se lhe dá status face à burocracia da intelligentsia, retira-lhe, é óbvio, a força, a puissance, do general que se tornou o mito e a voz dos EUA na intervenção afegã. Petraeus sobre caindo: a voz militar dos EUA no Afeganistão se cala, estrategicamente.

Vozes e vozes, agora, tendem a discutir dois pontos: a legalidade jurídica do assassinato de Bin Laden e a sobrevida da Al Qaeda sem ele. A terceira questão, a presença dos EUA no Afeganistão, já foi liquidada no anúncio presidencial de 28 de abril.

A defesa da operação dos Seals não requer, ainda que receba, defesa. Será calcada numa dilatação do Ato Patriótico. Veja você que, para liderar a área de segurança nacional do país, Obama indicou o advogado e acadêmico James B. Steinberg, ex-vice-conselheiro de Segurança Nacional de Bill Clinton (1993-2001). Steinberg é o maior defensor de remanejamentos dos limites do Ato Patriótico, cujas fronteiras ele acha que devam ser dilatadas em situações extremas (como a localização de Bin Laden). Hoje, Steinberg foi endossado por Eric Holder.

Sobrevida

A questão que falta é saber o quanto de Al Qaeda existe, ou não, na chamada Primavera Árabe, Arab Spring, nome genérico dado aos levantes de 2001 no mundo árabe. Não se sabe quantificar o quanto desse movimento segue os preceitos da festa xiita do Muharram. Ali casou-se com Fátima, filha do profeta Maomé. Um dos filhos do casal, Hussain, foi assassinado na planície de Kerbela, hoje Iraque, no décimo dia do mês de Muharram, no ano de 680. Com Hussain morreram 87 pessoas. O corpo de Hussain ostentava 33 estocadas de lança e 34 golpes de espada. Muitos xiitas ainda repetem anualmente esse ritual, reproduzindo em seus corpos os estigmas de Hussain, neto do profeta Maomé.

A sobrevida da Al Qaeda pode estar na arte de convencer aos psicopatas desse falso islamismo de que o corpo de Bin Laden merece lugar no panteão dos mártires dos xiitas, como merece ainda o corpo de Hussain.

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