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Palestina - "Só quem vive lá pode explicar"

Ruayda conta como está a situação de sua família diante da brutal realidade da guerra. Essa brasileira casada com um palestino, mãe de três filhos

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Por André Lobão, para o 247 - A reação palestina, no dia 7/10, a partir das ações de retomada de áreas das antigas fronteiras promovidas pelo movimento político Hamas, para colocar fim à ocupação dos territórios palestinos por Israel, e o posterior revide desproporcional do estado sionista traz à tona como o processo de invisibilização da causa palestina na mídia internacional e brasileira.

O enfoque de TVs, jornais e sites de notícias das grandes empresas de comunicação mostram sempre que o lado do bem é ocupado por Israel, e o lado mal é ocupado pelos palestinos. Ou seja, uma abordagem tendenciosa que não esclarece o que de fato acontece em Israel e na Palestina ocupada.

A brasileira Ruayda Rabah mora em Kobar, um vilarejo na Cisjordânia. Ela é tradutora de português-árabe-português e professora de português.

"Infelizmente percebemos que a nossa mídia é manipulada e que nunca chega à verdade por inteiro, sendo regida pelo poder. Muitos jornalistas que conhecêssemos, que procuram a verdade, são impedidos de contá-la. É rude dizer isso, mas ao que parece essa mídia trabalha para o imperialismo. Só publicam aquilo que lhe dá audiência e poder. Isso não é o seu papel, o que a mídia tem que fazer é passar a realidade. E abordar a causa palestina para a grande mídia do Brasil é mexer com o poder que a sustenta, deixando de lado a verdade e a justiça, desumanizando a quem deveria humanizar e vitimizar quem não deve ser. E por isso, as mentiras têm se alastrado" - critica Ruayda.

A Nakba

Em 15 de maio de 1948  foi criado o estado de Israel, por uma resolução da ONU negociada  a partir de um acordo entre os países vencedores da Segunda Guerra Mundial, a antiga União Soviética, EUA, França e Inglaterra.

Naquele momento foram expulsos violentamente de suas terras 800 mil palestinos e destruídas mais de 500 aldeias. Esse período ficou marcado como a "Nakba".

A sociedade palestina sofreu uma fragmentação, e assim permanece até hoje.  Parte dessa população vive sob ocupação, enfrentando há anos a expansão colonial do estado de Israel, nos territórios ocupados em 1967 (Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental), outra como remanescente nas áreas de 1948 e a maior parte na diáspora.

Segunda a jornalista e pesquisadora em  Estudos Árabes da USP,  Soraya Misleh, dos 13 milhões de palestinos, mais da metade vivem fora de suas terras, sendo 5 milhões em campos de refugiados nos países árabes. Os que vieram para o Brasil são parte da diáspora que se espalhou pelo mundo. Há estimativas de que haja no país mais de 60 mil palestinos e descendentes.

Para Ruayda Rabah, o Brasil acolhe os refugiados palestinos de forma digna.

"No Brasil, os refugiados têm sido bem recebidos. Grande parte passou por momentos difíceis, principalmente durante o governo Bolsonaro, mas acredito que estejam em situação melhor do que se estivessem em muitos outros lugares. Eles têm a oportunidade de aprender a língua portuguesa, ter um lar, emprego e escola para os seus filhos. Aqui o Brasil atende as necessidades dos refugiados palestinos. Existem entidades que dão apoio a esses refugiados, prestando uma assistência muito digna a eles" - avalia a tradutora. 

A principal entidade de apoio aos palestinos no Brasil é a Federação Árabe Palestina do Brasil ( FEPAL) , filiada à Confederação Palestina da América Latina e do Caribe (COPLAC).

Ruayda conta como está a situação de sua família diante da brutal realidade da guerra. Essa brasileira casada com um palestino, mãe de três filhos.

"A situação de minha família na Palestina é preocupante, tudo lá é extremamente preocupante. Temos medo de que nossos filhos saiam de casa, até mesmo quando vão e voltam da escola. Se pedem para ir a um campo de futebol para jogar bola, ficamos apreensivos, observando se no vilarejo não entra alguém ou um carro estranho. Por mais que se tente levar uma vida normal, vivemos sob permanente tensão. Ocorrem mortes de crianças no trajeto da escola, em campos de futebol, ataques de colonos. É o medo de que seu marido não volte do trabalho, medo de não encontrar sua casa, medo de passar numa barreira do exército israelense. Enfim, é algo que só quem vive ali pode explicar" - relata uma realidade que podemos considerar muito próxima das favelas do Rio de Janeiro.