Papa Leão 14 alerta que inteligência artificial pode alimentar conflitos
Declaração foi feita durante viagem a Camarões e ocorre em meio a críticas a Donald Trump por postagem gerada por IA
247 - O Papa Leão 14 afirmou nesta sexta-feira (17) que o avanço da inteligência artificial pode contribuir para a disseminação de “conflitos, medo e violência”. A declaração ocorreu durante sua visita a Camarões e foi divulgada pela Agência France Presse (AFP).
O posicionamento do pontífice surge em meio à repercussão negativa envolvendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após a publicação — posteriormente apagada — de uma imagem gerada por inteligência artificial que o retratava como uma figura semelhante a Jesus Cristo.
Durante discurso na Universidade Católica da África Central, em Yaoundé, o papa fez um alerta direto sobre os impactos da tecnologia na sociedade contemporânea. “O desafio apresentado por esses sistemas é maior do que parece: não se trata apenas do uso de novas tecnologias, mas da substituição gradual da realidade por sua simulação”, declarou. Em seguida, acrescentou: “Dessa forma, a polarização, o conflito, o medo e a violência se espalham. O que está em jogo não é apenas o risco de erro, mas uma transformação em nossa própria relação com a verdade.”
A fala foi feita após uma missa celebrada em Douala, considerada a capital econômica de Camarões, que reuniu mais de 120 mil fiéis — o maior evento da viagem do pontífice ao continente africano até agora. Ao longo da agenda, marcada por discursos mais incisivos, o papa tem reforçado apelos por paz e responsabilidade global.
O contexto das declarações inclui também recentes embates com Donald Trump. Após críticas do papa à guerra envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã, Trump reagiu chamando o líder religioso de “fraco no combate ao crime e péssimo para a política externa”. Na sequência, publicou a imagem gerada por IA que gerou críticas de líderes religiosos, sendo posteriormente removida.
Sem mencionar diretamente o presidente americano, o pontífice também criticou, em outro momento da viagem, o que chamou de “punhado de tiranos” no cenário global. Trump respondeu afirmando que o papa precisaria compreender as realidades de um “mundo cruel”.
Durante sua passagem por Camarões, o líder católico foi recebido por multidões entusiasmadas, com fiéis cantando e celebrando sua presença. No entanto, há preocupações locais de que a visita possa beneficiar a imagem do presidente Paul Biya, que governa o país desde 1982.
Camarões tem enfrentado tensões políticas recentes, incluindo protestos reprimidos com violência após a reeleição de Biya. Relatos indicam que forças de segurança utilizaram munição real contra manifestantes, resultando em dezenas de mortes, embora sem números oficiais detalhados.
Ao longo da viagem, o papa também abordou questões econômicas e ambientais. Em seu discurso sobre inteligência artificial, ele criticou a “devastação ambiental” causada pela exploração de terras raras — essenciais para o desenvolvimento tecnológico — e denunciou a corrupção na indústria de mineração, que, segundo ele, beneficia potências estrangeiras enquanto prejudica populações locais.
Mesmo diante de pressões, incluindo um apelo do vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, para que se concentrasse apenas em temas morais, o papa manteve uma abordagem ampla, abordando política internacional, economia e tecnologia.
A visita do pontífice à África faz parte de uma viagem de 11 dias que inclui passagens por países como Argélia, Angola e Guiné Equatorial, consolidando sua presença internacional e reforçando sua atuação em temas globais sensíveis.