Papa Leão XIV inicia visita à Espanha e cobra reparação às vítimas
Pontífice classifica abusos sexuais na Igreja como “ferida ainda aberta” e terá encontros com vítimas e migrantes durante agenda de sete dias
247 - O papa Leão XIV desembarcou neste sábado (6) em Madri para uma visita oficial de sete dias à Espanha, marcada por discussões sobre os abusos sexuais cometidos por membros da Igreja Católica e pela questão migratória. Segundo informações publicadas pelo jornal O Globo, com base em agências internacionais, o Pontífice deverá se reunir com vítimas de violência sexual praticada por integrantes do clero e participar de uma série de compromissos institucionais e religiosos em diferentes regiões do país.
Durante o voo rumo à Espanha, Leão XIV voltou a abordar a crise dos abusos sexuais na Igreja, classificando o problema como uma “ferida ainda aberta”. O tema ocupa posição central em sua agenda no país e ocorre em um momento em que autoridades espanholas e a própria Igreja avançam em medidas de reparação às vítimas.
Na cerimônia oficial de recepção realizada no Palácio Real de Madri, o rei Felipe VI elogiou a postura adotada pelo líder da Igreja Católica diante do tema. Em referência ao posicionamento do papa, o monarca declarou: “Sua clareza e firmeza, que também desejo reconhecer, são essenciais no processo de cura e na reparação dos danos causados”.
Abusos sexuais e reparação às vítimas
O debate sobre os abusos sexuais envolvendo membros da Igreja ganhou força na Espanha nos últimos anos. Um relatório divulgado em 2023 pelo Ministério Público espanhol estimou que mais de 200 mil menores podem ter sido vítimas de abusos praticados por integrantes do clero católico desde 1940.
Em resposta às cobranças por justiça e transparência, o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez e a Igreja espanhola firmaram, no fim de março, um acordo para indenizar vítimas de crimes sexuais. A iniciativa foi considerada um marco após anos de críticas à condução do tema por parte da hierarquia eclesiástica.
Recebido no Aeroporto de Barajas pelo rei Felipe VI, pela rainha Letizia e por Pedro Sánchez, Leão XIV seguiu para o Palácio Real, onde participou da cerimônia de boas-vindas e fez um pronunciamento público.
Apelo contra a polarização
Em seu discurso, o Pontífice pediu que a sociedade espanhola supere divisões políticas e históricas. Segundo ele, é necessário “abandonar as narrativas divisivas e polarizadoras de sua realidade social e de sua história, e a passar das simplificações estéreis para uma apreciação fecunda da complexidade”.
Após a recepção oficial, a agenda do papa incluiu a visita a um centro social na capital espanhola. O dia será encerrado com uma vigília de oração nas proximidades do estádio Santiago Bernabéu, em Madri, evento que deve reunir cerca de 400 mil pessoas.
Apesar da queda da prática religiosa registrada nas últimas décadas em um dos países historicamente mais ligados ao catolicismo na Europa, a visita tem despertado grande mobilização popular e institucional.
Interesse dos jovens pela religião
Durante a viagem, Leão XIV comentou a possibilidade de um renovado interesse de parte da juventude pela fé religiosa. Ao falar sobre o tema, afirmou: “Eles percebem que há um vazio (...) e talvez minha visita tenha ajudado a despertar algo que nem eles mesmos sabem definir”.
Em seguida, fez uma referência bem-humorada à presença do cantor porto-riquenho Bad Bunny em Madri. “Se tiverem que escolher entre ver Bad Bunny ou o Papa, acho que muitos irão ver Bad Bunny. Mas também acho que alguns virão ver o Papa. E isso diz muito”, declarou.
A expectativa é que uma missa celebrada neste domingo na Praça de Cibeles reúna aproximadamente um milhão de fiéis, tornando-se um dos maiores eventos da visita.
Agenda institucional e passagem por Barcelona
Na segunda-feira, Leão XIV fará história ao se tornar o primeiro papa a discursar no Parlamento espanhol. O pronunciamento será dirigido aos integrantes das duas casas legislativas do país.
No dia seguinte, ele seguirá para Barcelona, onde cumprirá uma intensa programação de compromissos religiosos e institucionais. O ponto alto da passagem pela cidade será a missa marcada para quarta-feira na Basílica da Sagrada Família.
A celebração acontece em um momento simbólico para o templo projetado por Antoni Gaudí, que recentemente se tornou a igreja mais alta do mundo e cujo arquiteto teve sua memória destacada durante as comemorações do centenário de sua morte.
Migração entra no centro da visita
Após os compromissos em Barcelona, o papa viajará para as Ilhas Canárias, arquipélago localizado próximo à costa africana e considerado uma das principais portas de entrada de migrantes irregulares na Espanha.
Sensível ao tema, assim como seu antecessor Francisco, Leão XIV se reunirá com migrantes e com organizações que atuam no acolhimento e assistência dessas populações. Também participará de uma cerimônia em homenagem aos milhares de migrantes que perderam a vida durante a travessia rumo à Europa.
Durante a passagem pelas ilhas, o Pontífice será acompanhado pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez. O governo espanhol defende atualmente um amplo plano de regularização migratória que poderá beneficiar cerca de 500 mil pessoas sem documentação, medida que enfrenta oposição de setores conservadores e da extrema direita.
Segurança reforçada e atenção internacional
A visita do papa mobilizou um dos maiores esquemas de segurança dos últimos anos na Espanha. Aproximadamente 15 mil agentes da Polícia Nacional, da Guarda Civil e de forças locais foram destacados para acompanhar os deslocamentos e eventos da agenda papal.
Mais de 4 mil jornalistas de 80 países receberam credenciamento para cobrir a viagem, considerada uma das mais relevantes do atual pontificado até o momento.
Esta é a primeira visita de Leão XIV, um papa peruano-americano de 70 anos, a um país da União Europeia fora da Itália. Também representa a primeira viagem de um pontífice à Espanha desde a visita realizada por Bento XVI em 2011.
