Parlamento romeno derruba premiê pró-UE com apoio da extrema direita
Moção aprovada com ampla maioria expõe crise política, fortalece ultranacionalistas e abre impasse para formação de novo governo na Romênia
247 - O Parlamento da Romênia aprovou nesta terça-feira (5) uma moção de censura que resultou na queda do primeiro-ministro Ilie Bolojan, líder identificado com a agenda pró-União Europeia. A decisão inaugura um novo período de instabilidade política no país, considerado estratégico tanto para a Otan quanto para o bloco europeu.
Segundo informações publicadas pela RFI, a derrubada do governo foi viabilizada por uma articulação incomum entre o Partido Social-Democrata (PSD), de centro-esquerda, e a extrema direita representada pela Aliança para a Unidade dos Romenos (AUR). A moção recebeu 281 votos favoráveis, superando com folga os 233 necessários em um Parlamento com 464 cadeiras.
A votação encerra um governo com menos de um ano de mandato e reacende preocupações sobre o avanço da extrema direita no cenário político romeno, em um contexto de tensões econômicas e geopolíticas.
Aliança amplia espaço da extrema direita
A cooperação entre PSD e AUR foi alvo de críticas de forças políticas tradicionais, que acusam os social-democratas de legitimar um partido ultranacionalista em crescimento. A aproximação rompe o isolamento político que até então limitava a influência da extrema direita.
O cientista político Costin Ciobanu, da Universidade de Aarhus, afirmou à AFP que o movimento transformou a AUR em “um ator político central”. O analista destaca que o partido de extrema direita vem ganhando terreno nas pesquisas, alcançando 37% de avaliações favoráveis e superando o PSD em intenções de voto.
Mesmo com esse avanço, o PSD ainda mantém a maior bancada parlamentar, com 130 deputados eleitos em dezembro de 2024, o que reforça seu peso nas articulações políticas.
Crise interna e disputa sobre austeridade
A saída do PSD da coalizão governista ocorreu cerca de duas semanas antes da votação, motivada por divergências em relação ao programa de austeridade fiscal implementado por Bolojan. As medidas buscavam conter o déficit público, o maior da União Europeia.
Após a aprovação da moção, o líder do PSD, Sorin Grindeanu, afirmou que seria “apropriado que Ilie Bolojan renunciasse imediatamente” para facilitar a formação de um novo governo. A declaração evidencia a pressão por uma rápida reorganização política.
Bolojan reagiu de forma contundente, classificando a iniciativa como “mentirosa e cínica”. Ele defendeu sua gestão ao afirmar: “Não fiz o que era popular, fiz o que era correto. Os problemas graves do país não vão desaparecer comigo”.
Histórico recente e cenário eleitoral
A ascensão de Bolojan ao cargo, em junho de 2025, foi resultado de uma coalizão formada por quatro partidos pró-europeus, incluindo o próprio PSD. O acordo encerrou semanas de negociações após um período de instabilidade iniciado com a anulação da eleição presidencial de novembro de 2024.
Aquele processo eleitoral foi marcado pela surpreendente ascensão de um candidato de extrema direita, em meio a suspeitas de interferência russa — tema sensível para a Romênia, que faz fronteira com a Ucrânia e integra a linha de frente oriental da Otan.
O atual cenário político indica um ambiente fragmentado, com crescimento de forças nacionalistas e dificuldades para consolidar maiorias estáveis no Parlamento.
Impasse político e pressões internacionais
Na véspera da votação, o presidente Nicusor Dan afirmou que o país manterá sua orientação pró-ocidental, apesar da crise. “As negociações serão difíceis, mas é minha responsabilidade — e a dos partidos — manter a Romênia no rumo correto”, declarou.
Especialistas apontam que a formação de um novo governo deve exigir negociações prolongadas. A avaliação predominante é que uma coalizão pró-União Europeia pode ser reconstruída, possivelmente sem Bolojan à frente.
No plano internacional, a aproximação entre PSD e extrema direita gerou reações. Partidos de centro-direita criticaram duramente a articulação, enquanto cerca de 30 organizações não governamentais pediram a expulsão do PSD do Partido dos Socialistas Europeus caso a cooperação persista.
Economia fragilizada agrava crise
O PSD nega qualquer aliança duradoura com a AUR e afirma que a convergência teve como único objetivo derrubar o governo. Ainda assim, analistas veem o episódio como reflexo de uma crise estratégica no partido, que enfrenta perda de apoio para a extrema direita.
Costin Ciobanu descreveu o momento como uma “crise de angústia existencial” dentro do PSD, diante da dificuldade de recuperar sua base eleitoral e definir uma linha política clara.
A instabilidade ocorre em meio a um cenário econômico delicado. O déficit da Romênia atingiu 7,9% do PIB no último trimestre de 2025, mantendo o país sob monitoramento da União Europeia por déficit excessivo. Bruxelas já sinalizou que a continuidade desse quadro pode levar à suspensão de recursos europeus, aumentando a pressão por ajustes fiscais.