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Paz: retórica jurídica

A fim de que a paz não se transforme numa mera retórica jurídica, que prevaleça o bom senso e o espírito de racionalidade, uma luz no horizonte

Decorridos quase 70 anos do fim da Segunda Grande Guerra, o mundo se pergunta se as organizações internacionais foram capazes de lutar pela paz, condição indissociável da vida em sociedade, direito inalienável ou, ao contrário, transformou-se numa retórica figura jurídica.

O exemplo mais candente é a situação de perplexidade que atinge a Síria, cambaleante na sua governabilidade e, em razão de tamanha fragilidade, ao invés de ser selado um verdadeiro tratado de paz, com o envio de tropas para debelar o estado de guerra, os EUA, em nome da liberdade e da democracia, pedem ao Congresso autorização para iniciar mais uma jornada bélica.

Desde o Abbé de Saint Pierre (Projeto para tornar Perpétua a Paz na Europa, Prefácio Ricardo Seitenfus, Ed. Universidade de Brasília) até os dias atuais se debate, em profusão, a representatividade das entidades internacionais na luta incessante para o armistício, a trégua e o fim do separatismo entre as Nações.

Entretanto, em muitos casos, as consequências econômicas da paz não são tão favoráveis quanto aos armamentos e o pioneirismo da indústria armamentista.

Keynes, com inegável brilhantismo, traçou o cenário macroeconômico da paz e suas repercussões na atividade liberal, mas foi Tocqueville que conseguiu, com maestria, demonstrar os percalços do caminho contínuo e permanente do desarmamento.

Em nosso modelo de sociedade moderna, os americanos são, ao menos dizemos, os verdadeiros protagonistas das liberdades democráticas, no entanto ferem de morte o conceito quando, em nome de uma pseudo defesa da sociedade passam a agressão, como fazem subrepticiamente nas transgressões do direito ao sigilo de informação e comunicação, por meio de espionagens, as quais têm como pano de fundo seus interesses exclusivamente geopolítico e econômico.

Volvendo os olhos para o pesar de uma primavera árabe, que trouxe consequências infelizes para os respectivos povos, a incursão pela guerra repercute o estado invernal das Nações, pois o entorno vivenciará um caldeirão a céu aberto, colocando mais lenha na fogueira, com Países vizinhos preparados para, sob qualquer pretexto, lançarem seus misseis e bombardeios pesados.

A paz deve ser, portanto, buscada a exaustão, e os EUA, bem antes de deliberarem, isolada e exclusivamente pela guerra, deveriam convocar o Conselho de Segurança da ONU e aprovar o envio de tropas para romper as barreiras e traçar linhas de separação entre os que atacam em nome do governo e os que se defendem para a destruição da Síria.

É inimaginável, no atual século XXI, que os órgãos representativos dos Países segreguem pesos e contrapesos sem uma solução ordenada.

Apesar de China e Rússia mostrarem interesses antagônicos na disputa, muito dificilmente vetarão o envio de tropas de paz que assegurem o cessar fogo e a convocação de eleições livres e diretas supervisionadas por observadores estrangeiros.

E, a propósito, a voz prevalente do Papa Francisco, no seu discurso, clamando para se encontrar um denominador comum em prol da paz naquela região que vem sendo, ao longo dos anos, assolada pelas guerras e desavenças, com mais de 3 milhões de refugiados espalhados mundo afora.

A fim de que a paz não se transforme numa mera retórica jurídica, que prevaleça o bom senso e o espírito de racionalidade, uma luz no horizonte, no propósito de serem enviadas tropas, mas de paz, para aquela conturbada região, cujo papel chave e fundamental da democracia americana, antes de tudo, é de comprovar que a cessação do estado de guerra é uma vitória para toda a humanidade.