Poder, política e beijo de língua

O caso do ex-chefo do FMI deu voz s mulheres e desencadeou uma queda de polticos franceses em efeito-domin



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Roberta Namour, correspondente do Brasil 247 em Paris _ O sorriso é discreto, o olhar malicioso e o perfume onipresente. Com uma delicadeza à la française, chique pelo terno Dior e rústica pela baguete embaixo do braço, o French Lover - como foi apelidada a reputação dos franceses pelos americanos desde o final do século 19 - são os melhores amantes do mundo. Pudera, foram eles que criaram o beijo de língua, o french kiss, ainda segundo os Estados Unidos. Os franceses fazem qualquer mulher se sentir poderosa quando atravessa a rua, cheirosa quando volta para casa depois de um dia inteiro de trabalho e sexy com uma simples calça jeans. Mas essa imagem galanteadora se perdeu no dia 14 de maio de 2011, mais precisamente às 16h45 (horário de Nova York), na primeira classe do vôo da Air France para Paris. Quando as algemas se fecharam, o French lover desapareceu. No seu lugar, o retrato de um homem depravado e violento ganhou as páginas do mundo todo.

O então intocável todo poderoso chefão do FMI, Dominique Strauss-Kahn, foi preso em Nova York por tentativa de estupro, a poucos minutos antes de deixar os Estados Unidos. Uma camareira de origem africana fez o que jamais poderia se imaginar possível na França : colocar atrás das grades, mesmo que por poucos dias, o homem que em 2012 tinha grandes chances de assumir a presidência do País. As sete acusações de agressão sexual que pesam sobre ele serão levadas a julgamento. Nada garante, porém, que sua influência política (e os milhões de euros de sua esposa abonada) não o faça sair ileso dessa aventura. Mas uma coisa é certa e ninguém pode fazer voltar atrás. A máscara dos poderosos french lovers caiu. O caso DSK provocou debates acalorados sobre a insistente atitude machista de políticos franceses contra as mulheres e sobre a indulgência concedida na França a um comportamento severamente reprimido em outros países.

A incapacidade de DSK de se controlar sexualmente nunca foi um segredo nos bastidores da política francesa. Nenhuma mulher queria trabalhar ao seu lado. A filha de uma colega do partido socialista foi, inclusive, mais uma de suas vítimas. Mas como na França a palavra de um homem de poder vale muito mais do que a de uma mulher, o caso ficou na gaveta até alguns dias atrás. Segundo Chantal Brunel, deputada do partido do governo UMP, 10,1 mil estupros foram oficialmente denunciados em 2010. « Mas acredita-se que uma pessoa a cada dez vá à polícia. As outras se calam », acrescenta. A coragem de uma camareira e o respaldo da implacável da mídia americana abriram as portas para uma onda de acusações contra a impunidade francesa. As mulheres ganharam voz.

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Pouco mais de quinze dias depois de DSK, o secretário de Estado Georges Tron foi forçado a pedir demissão à Nicolas Sarkozy em decorrência de um escândalo de abuso sexual, denunciado por duas ex-funcionárias. E mais recentemente, o prefeito de Levallois-Perret, Patrick Balkany, foi acusado por sua assistente de gabinete por assédio sexual. Em 1996, seu nome esteve envolvido em um escândalo de estupro sob a ameaça de uma arma, mas logo caiu no esquecimento.

Nas últimas semanas, a procura por advogados contra abuso sexual aumentou consideravelmente. Associações pela proteção das mulheres têm recebido 30% de chamadas suplementares depois do caso DSK. Até as mulheres políticas quebraram o silêncio e têm testemunhado na imprensa contra o machismo que sofrem em suas funções. A ministra do Esporte, Chantal Jouanno, afirmou não poder usar saia sem ouvir comentários lascivos.

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O poder poderá sempre comprar o sexo ou o silêncio. Mas enquanto mulheres destemidas como a camareira do Softel existirem, a dignidade feminina estará a salvo. Resta a saber se a justiça americana tem um preço e quando as autoridades francesas se libertarão da influência política.

 

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