Por que o vírus Nipah preocupa autoridades de saúde em novo surto
A OMS incluiu o Nipah na lista de doenças prioritárias para pesquisa
247 - Um surto do vírus Nipah no estado indiano de Bengala Ocidental colocou as autoridades de saúde do país em estado de alerta após a confirmação de cinco casos entre profissionais de um mesmo hospital.
De acordo com o Departamento de Saúde de Bengala Ocidental, os casos confirmados envolvem médicos e enfermeiros que atuavam na mesma unidade hospitalar. Quase 100 pessoas que tiveram contato próximo com os infectados foram orientadas a cumprir quarentena preventiva. Os pacientes estão internados em Calcutá, capital do estado, e ao menos um deles encontra-se em estado crítico.
O vírus Nipah (NiV) é considerado um dos patógenos mais perigosos em circulação atualmente. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a infecção pode se manifestar de diferentes formas, variando de quadros respiratórios leves a encefalites fatais, com graves sequelas neurológicas.
— Atualmente não temos nenhum alerta sobre o vírus no Brasil. É importante sempre estarmos atentos aos surtos internacionais. No cenário de globalização, existe sempre um risco de transmissão. Mas no momento não temos nenhum alerta ou casos no país — diz Kamilla Moraes, infectologista da UPA Vila Santa Catarina, unidade pública gerenciada pelo Einstein Hospital Israelita.
O Nipah circula principalmente entre morcegos frugívoros do gênero Pteropus, considerados os reservatórios naturais do vírus. A transmissão pode ocorrer por meio do consumo de alimentos contaminados com saliva ou urina desses animais, pelo contato com hospedeiros intermediários ou, em determinados contextos, diretamente entre humanos.
Segundo a OMS, os sintomas iniciais costumam incluir febre, dor de cabeça, dores musculares, vômitos e dor de garganta. Com a progressão da infecção, podem surgir tontura, sonolência, confusão mental e sinais neurológicos compatíveis com encefalite aguda.
Em casos mais graves, a doença pode evoluir rapidamente para convulsões e coma, em um intervalo de 24 a 48 horas. O período de incubação geralmente varia entre quatro e 14 dias, mas já foram registrados casos em que os sintomas surgiram até 45 dias após a infecção.
A taxa de letalidade do vírus Nipah é estimada entre 40% e 75% dos casos, variando conforme o surto e a capacidade local de vigilância epidemiológica e atendimento hospitalar. Não existem, até o momento, vacinas ou medicamentos antivirais específicos aprovados para o tratamento da infecção.
A OMS incluiu o Nipah na lista de doenças prioritárias para pesquisa e desenvolvimento, justamente pelo potencial de causar surtos com alta mortalidade. Atualmente, o tratamento se baseia em cuidados intensivos de suporte, voltados principalmente para o controle de insuficiência respiratória e complicações neurológicas.
O vírus foi identificado pela primeira vez em 1999, durante um surto entre criadores de porcos na Malásia. Desde então, episódios esporádicos foram registrados em países como Bangladesh, Índia, Malásia, Filipinas e Singapura.
Nos primeiros surtos, a infecção humana esteve associada ao consumo de carne de porcos doentes. Em episódios mais recentes, sobretudo em Bangladesh e na Índia, o consumo de frutas ou derivados contaminados por morcegos foi apontado como a principal via de transmissão.
A transmissão entre humanos também já foi documentada, especialmente entre familiares e profissionais de saúde. Em um surto ocorrido na Índia em 2001, cerca de 75% dos casos foram registrados entre funcionários ou visitantes de um hospital. Em Bangladesh, entre 2001 e 2008, aproximadamente metade das infecções ocorreu por contato direto durante o cuidado de pacientes contaminados.
Diante do novo surto, autoridades indianas reforçaram medidas de vigilância, rastreamento de contatos e controle de infecções hospitalares para conter a disseminação do vírus.