Pressões de Trump sobre aliados ampliam a influência global da China, aponta Bloomberg
Análise mostra como a estratégia do presidente dos EUA fragiliza alianças e fortalece o protagonismo internacional de Xi Jinping
247 - A inauguração do Escritório de Representação de Taiwan na Lituânia, em 2021, parecia um gesto diplomático discreto de um pequeno país da União Europeia. No entanto, o episódio acabou se transformando em um símbolo de disputas geopolíticas de grande escala entre Estados Unidos, China e Europa. Segundo análise da Bloomberg, o caso expôs tanto o uso da coerção econômica por Pequim quanto a capacidade, então existente, de articulação do Ocidente para responder de forma coordenada a esse tipo de pressão.
Naquele momento, a China reagiu restringindo fluxos comerciais e investimentos contra a Lituânia, após o fortalecimento dos laços do país báltico com Taiwan, território reivindicado por Pequim. A resposta europeia foi a aprovação de um instrumento legal para reagir de maneira rápida e contundente a tentativas de coerção econômica. A iniciativa fazia parte de um contexto mais amplo em que os aliados dos Estados Unidos, sob a presidência de Joe Biden, buscavam conter a influência chinesa e limitar seu acesso a tecnologias estratégicas.
Em 2023, líderes do G7 chegaram a prometer que impediriam qualquer país de usar dependências econômicas como instrumento de pressão política. O então embaixador dos EUA no Japão, Rahm Emanuel, defendeu a criação de algo semelhante a uma “OTAN econômica”. Em artigo publicado no Wall Street Journal, escreveu: “Podemos isolar ainda mais a China confrontando suas táticas econômicas, a área em que sua determinação em dominar é mais evidente. Ela usa coerção, mercantilismo e diplomacia da armadilha da dívida para esmagar a concorrência e controlar outros países”.
Esse cenário, contudo, mudou radicalmente com o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. De acordo com a Bloomberg, ao ameaçar impor tarifas a aliados e usar a intimidação como ferramenta recorrente de política externa — inclusive pressionando a Dinamarca a negociar a Groenlândia — Trump vem desferindo um golpe profundo na ordem internacional baseada em regras e no sistema de alianças que sustentou a supremacia americana desde a Segunda Guerra Mundial.
Em vez de reforçar um bloco unido contra o Partido Comunista Chinês, líderes europeus passaram, pela primeira vez, a considerar o uso de instrumentos de defesa econômica da União Europeia contra o próprio principal aliado militar do continente. Autoridades da Alemanha afirmaram que Trump “ultrapassou um limite”, enquanto o presidente francês, Emmanuel Macron, lamentou a consolidação de um “mundo sem regras”. Na Groenlândia, o primeiro-ministro chegou a alertar a população para a possibilidade de uma invasão militar.
O impacto dessa mudança ficou evidente no Fórum Econômico Mundial, em Davos. Em um dos discursos mais contundentes do encontro, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, declarou o fim da ordem internacional baseada em regras e defendeu que potências médias se unam para enfrentar pressões das grandes potências. “As grandes potências começaram a usar a integração econômica como arma, as tarifas como forma de pressão, a infraestrutura financeira como coerção e as cadeias de suprimentos como vulnerabilidades a serem exploradas”, afirmou. Segundo ele, países intermediários precisam escolher entre competir por favores ou “unir forças para criar um terceiro caminho”.
Embora Trump tenha negado publicamente o uso da força contra a Groenlândia, a Bloomberg ressalta que suas constantes ameaças produzem efeitos concretos. Aliados e parceiros dos Estados Unidos estão sendo levados a reduzir sua exposição a Washington e a buscar alternativas em um cenário em que o antigo líder do chamado mundo livre é visto como imprevisível. Fontes ouvidas pela reportagem indicam que os EUA desejam reescrever o acordo de defesa com a Dinamarca para eliminar limites à presença militar americana na ilha, reduzindo o debate sobre soberania à lógica de bases estratégicas.
Nesse contexto, a China aparece como beneficiária indireta. A visita de Mark Carney a Pequim e a assinatura de um acordo comercial que facilita a entrada de veículos elétricos chineses no Canadá ilustram uma ruptura clara com a política americana, que mantém tarifas elevadas sob o argumento de segurança nacional. Em Davos, Carney descreveu essa estratégia como “geometria variável”, formando diferentes coalizões conforme o tema — comércio, segurança, minerais críticos ou inteligência artificial.
A análise da Bloomberg aponta que essa lógica não é exclusiva do Canadá. Países asiáticos, como a Índia, há anos equilibram relações com Estados Unidos, China e outras potências. O principal diplomata indiano, Subrahmanyam Jaishankar, já descreveu essa postura como uma forma de “proteção”, afirmando que aparentes contradições devem ser vistas “não como aritmética, mas como cálculo”.
A postura errática de Trump, segundo a reportagem, expõe contradições da própria estratégia americana. A mais recente Estratégia de Segurança Nacional dos EUA defende relações mais estreitas com a Índia, ao mesmo tempo em que pede que aliados evitem se tornar subordinados a qualquer potência concorrente. Para analistas, essa retórica entra em choque com práticas unilaterais que enfraquecem a confiança dos parceiros.
O efeito colateral mais profundo dessa dinâmica é o fortalecimento da posição internacional de Xi Jinping. Embora a China não tenha interesse em um colapso completo do sistema internacional — do qual foi uma das maiores beneficiárias desde o fim dos anos 1970 —, a fragmentação do bloco ocidental e o desgaste da liderança americana ampliam o espaço para Pequim se apresentar como alternativa econômica e diplomática.
Ao final, a Bloomberg descreve um paradoxo: enquanto Trump busca conter a China e estabelecer uma esfera de influência exclusiva para os Estados Unidos, suas ações acabam elevando o prestígio global de Xi. Em um mundo cada vez mais desconfiado da previsibilidade americana, muitos países concluem que algum grau de dependência da China pode ser necessário não apenas para crescer, mas também para se proteger das pressões vindas de Washington.