“Se Bolsonaro apoiar Trump, podemos ter graves consequências na segurança”, alerta Amorim

O ex-chanceler Celso Amorim, que foi responsável por orquestrar a tentativa de um acordo nuclear com os iranianos durante o governo Lula, vê a movimentação dos EUA como algo muito grave. “Duvido que fique por aí. Difícil imaginar que não haja reação.

(Foto: 247 | Alan Santos/PR)
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Carta Capital -  O ano de 2020 começou com uma crise que deixou o mundo em alerta. Um ataque feito pelos EUA, nesta sexta-feira 03, matou o líder militar mais importante do Irã, o general Qassen Soleimani, uma das figuras mais respeitadas do país.

O ataque aconteceu no aeroporto de Bagdá, no Iraque, e logo em seguida foi assumido pelo governo americano. Imediatamente houve uma comoção no país e potencias como China e Rússia declararam apoio ao governo iraniano, que prometeu se vingar da morte de seu líder.

A movimentação deixou uma insegurança no ar e uma suposta terceira guerra mundial dominou as redes sociais nesta sexta-feira. O assunto foi o mais comentado no Twitter durante todo o dia.

Celso Amorim, ex-chanceler brasileiro e que chegou a ser indicado pela ONU para acompanhar um processo de desarmamento no Iraque no final dos anos 90, acredita que essa é, potencialmente, a crise internacional mais grave que ele já presenciou. “Nunca vi uma pessoa de alto hierarquia de um Estado ser assassinada por outro Estado, nunca vi isso em tempos recentes”, afirmou.

Em entrevista a CartaCapital, Amorim, que foi responsável por orquestrar a tentativa de um acordo nuclear com os iranianos durante o governo Lula, vê a movimentação dos EUA como algo muito grave. “Duvido que fique por aí. Difícil imaginar que não haja reação. China condenou, Rússia também, vejo que alguma coisa a mais vai acontecer. Os iranianos são pessoas difíceis, duras e muito patriotas”, ressaltou.

Já quanto a uma nova guerra mundial, o chanceler acredita que está descartada. “Terceira guerra mundial não é uma coisa provável. No auge da confrontação entre EUA e Rússia, antiga União Soviética, na Guerra Fria, ambos os países tiveram bom senso de irem até certo ponto e dali não passar. Eu acho que haverá ações,  mas descartaria uma guerra mundial”, enfatizou.

Papel do Brasil

O presidente Jair Bolsonaro, que é parceiro político de Trump, ainda não tomou um lado sobre o caso. Na manhã desta sexta-feira 03, na saída do palácio da Alvorada, o capitão disse que conversaria com seus ministros para tomar uma posição.

Uma declaração apoiando Trump colocaria o Brasil em um lugar de disputa com o Oriente Médio, cenário inédito no país. Para Amorim, o melhor que o presidente poderia fazer é não tomar posição sobre o caso e apenas acompanhar os desdobramentos.

“Se o Brasil optar por um alinhamento automático com os EUA, poderá levar a prejuízos na área comercial. Dependendo dos desdobramento e dos níveis de apoio, as consequências podem ser mais graves, como na área de segurança”, alerta o chanceler.

“O Brasil tem que ser realista. Trabalhamos, ainda no governo de FHC,  para estabelecer a paz no Iraque (após bombardeios anglo-americanos em dezembro de 1998). Conseguimos frear a crise. Hoje, o Brasil não tem credencial para isso. Um país que se declara alinhado aos EUA não tem credencial para nada. O que deveria fazer é ficar quieto. Olhar o Secretário Geral da ONU e se orientar para isso”, afirmou.

Consequências econômicas

Com o ataque aéreo dos EUA, os preços do petróleo saltaram para seu maior nível em mais de três meses. O petróleo Brent fechou em alta de 3,6%, maior valor desde meados de setembro, quando instalações petrolíferas da Arábia Saudita sofreram ataques.

O Iraque, segundo maior produtor da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), exporta cerca de 3,4 milhões de barris de petróleo bruto por dia.

E esse aumento pode seguir, a depender dos desdobramentos da crise. Amorim alerta que qualquer crise que atinja o Oriente Médio reflete no preço do petróleo, o que interfere diretamente na economia global.

“Se o preço do petróleo sobe, tudo aumenta. Interferir nas exportações, porque diminui poder de compra com os outros países. Afeta o comércio. Desequilíbrios, instabilidades, efeitos negativos para o conjunto da economia mundial”, destaca.

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