Só depois de novembro

Uma guerra contra a Síria antes disso prejudicaria as chances eleitorais de Obama, pois o povo americano está mais do que cansado de guerras

"O conflito sírio será colocado  até novembro, depois das eleições presidenciais americanas", declarou o jornalista e escritor Willian Engdahl ao Russia Today.

Até lá o fogo seria mantido aceso, através de denúncias periódicas, mas evitando-se ao máximo que as chamas crescessem ao ponto de provocar um incêndio.

A denúncia atual refere-se a um fabuloso arsenal de armas químicas que Assad estaria transferindo para outros locais. Aventou-se a hipótese de que iriam para o Hisbolá.

Imediatamente, Netanyahu saltou, ameaçando um ataque militar israelense para impedir que essas armas de destruição em massa caíssem nas mãos desses seus tradicionais inimigos que operam no vizinho Líbano.

Obama apressou-se em jogar água, não para apagar a fogueira,  mas para mantê-la baixa, enviando militares a Telaviv com o objetivo de dissuadir Bibi.

Foi dito a ele que invadindo a Síria ele conseguiria o que Kofi Annan vem tentando conseguir sem êxito: unir todos os sírios.

Os homens de Obama alegaram que, certamente, as tais armas químicas seriam apenas transferidas para lugar seguro, fora do alcance dos rebeldes. Assad jamais renunciaria a elas em favor do Hisbolá.

Ele precisa ter suas armas químicas à mão para poder usá-las, em última instância, contra forças militares estrangeiras, caso invadissem a Síria.

Netanyahu ainda rosnou, mas acabou se acalmando, depois de o comandante do exército israelense afirmar que não havia chances de as armas químicas caírem nas  garras do Hisbolá.

Dizem os analistas que, através de uma sucessão de denúncias de barbaridades das tropas de Assad, estava se criando um clima internacional favorável à tese da intervenção militar.

Que Obama espera chegar ao ponto máximo de ebulição somente depois de novembro, quando sua reeleição seria decidida.

Uma guerra antes disso prejudicaria suas chances eleitorais,  pois o povo americano está mais do que cansado de guerras.

Vai odiar quem arrumar mais uma.

E raiva pesa muito nas urnas.

O eventual bombardeio das instalações nucleares do Irã também terá de esperar por novembro. Talvez janeiro, depois da posse do novo presidente.

Bibi jurava que estava com muita pressa, mas Obama conseguiu convencê-lo a ter calma.

Enquanto isso, os EUA continuam sabotando as reuniões de paz entre as grandes potências e o Irã.

Na última delas, quando se esperava ao menos um princípio de acordo, o representante americano exigiu interrupção total do enriquecimento de urânio a 20 graus,  sem mexer nas sanções contra o Irã.

E, agora, EUA e Israel anunciam grandes manobras militares conjuntas, nas quais se treinarão defesa e reação a ataques de mísseis.

Como se sabe,  mísseis constituem a principal força de retaliação do Irã.

Essas grandes manobras deverão se realizar em outubro.

Sintomaticamente, um mês antes de novembro. Depois da eleição do mês, o ataque ao Irã terá sinal verde.

Se acontecesse antes, Obama perderia muitos votos por levar seu país a uma guerra que vai exigir sacrifícios humanos pesados de um povo que não a deseja de jeito nenhum.

Novembro poderá ser ainda um mês importante na agenda dos palestinos.

Obama começou uma campanha para os convencer a adiarem para esse mês seu pedido de reconhecimento pela Assembléia Geral da ONU, marcada para setembro.

Desta vez, os palestinos serão pragmáticos.

Não irão ao Conselho de Segurança, mas à Assembléia Geral, onde deverão obter uma vitória massacrante.

É verdade que, na instância da Assembléia Geral da ONU, a Palestina só poderá ser reconhecida como estado-não membro.

Mas sua vitória será uma derrota não só para israelenses: também para Obama.

Romney, que o acusa de não defender Israel suficientemente, vai poder deitar e rolar.

Para evitar que isso respingue nas eleições, Obama precisa que a votação do pedido da Palestina seja adiada até depois de novembro.

Guerra na Síria, questão nuclear do Irã, reconhecimento da Palestina – novembro vai ser um mês crucial para a definição de todas essas questões.

Se Obama ganhar, há algumas esperanças, ainda que remotas, de que todas elas se resolvam bem.

Caso contrário, será o dilúvio.

É simples assim.

Luiz Eça é colunista de Política Internacional do CORREIO DA CIDADANIA e publicitário. Seu site de textos é www.olharomundo.com.br

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