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Volkswagen discute adaptar fábrica para setor de armamentos

Financial Times aponta negociações da alemã com empresa israelense para produzir componentes do Domo de Ferro

Logo da Volkswagen (Foto: REUTERS/Fabian Bimmer/Arquivo)

247 - Uma reportagem do Financial Times revelou que a Volkswagen está em negociações com a Rafael Advanced Defense Systems para uma possível parceria que pode transformar uma fábrica de automóveis em unidade de produção de equipamentos militares. O plano envolveria a adaptação da planta localizada em Osnabrück, na Alemanha.

Segundo a publicação, que cita fontes familiarizadas com as tratativas, a ideia é converter a fábrica para produzir componentes do sistema de defesa aérea Domo de Ferro. A unidade atravessa dificuldades e já tem o encerramento de sua produção previsto para 2027.

Procurada pela Deutsche Welle, a Volkswagen não confirmou a negociação. Em nota, um porta-voz afirmou que “a produção de armas pela Volkswagen AG continua descartada para o futuro, e não fazemos especulações sobre planos futuros para a unidade de Osnabrück”. Ainda assim, acrescentou que a empresa “continua a explorar opções viáveis” e mantém conversas com diferentes atores do mercado.

O representante destacou que o processo faz parte de uma revisão estratégica para o período posterior a 2027. “Isso faz parte de um processo de revisão aberto para o período posterior a 2027. Atualmente, não há decisões ou conclusões concretas sobre a direção futura da fábrica. Também estamos mantendo os funcionários locais informados sobre o andamento desse processo”, disse.

A unidade de Osnabrück emprega cerca de 2,3 mil trabalhadores, cujo futuro ainda está em análise desde a decisão, tomada em 2024, de encerrar a produção. Como parte das medidas de redução de custos, a montadora chegou a reduzir a jornada semanal em um dia no ano passado. Atualmente, a fábrica produz modelos como o T-Roc Cabriolet e veículos das marcas Porsche.

Em meio a esse cenário, o grupo alemão também anunciou recentemente planos de cortar até 50 mil empregos na Alemanha até 2030, após registrar o menor nível de lucro em uma década. O CEO da empresa, Oliver Blume, afirmou que o conglomerado “opera em um ambiente fundamentalmente diferente”, citando desafios como a eletrificação e a crescente concorrência chinesa.

De acordo com o Financial Times, a eventual parceria com a Rafael teria como objetivo preservar os empregos na unidade. Uma das fontes ouvidas afirmou que “o objetivo é salvar a todos, talvez até crescer. O potencial é enorme. Mas também é uma decisão individual dos trabalhadores se eles querem fazer parte da ideia.” O relatório também aponta que o governo alemão apoia a iniciativa, enquanto o estado da Baixa Saxônia mantém participação relevante na Volkswagen.

Caso se concretize, a movimentação representaria uma mudança significativa de estratégia, inserindo a montadora em um setor em rápida expansão desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022. Países europeus vêm ampliando seus orçamentos militares, o que tem impulsionado o crescimento da indústria de defesa no continente.

Especialistas avaliam que a transição pode trazer benefícios econômicos, mas também enfrentará obstáculos. O professor Paolo Surico afirmou que a migração para o setor de defesa é importante para ampliar os efeitos dos investimentos militares. Já Hans Christoph Atzpodien alertou que exigências burocráticas e autorizações de segurança podem retardar o processo.

Ainda segundo o Financial Times, a produção na fábrica de Osnabrück poderia começar entre 12 e 18 meses após um eventual acordo. No entanto, além das questões regulatórias, um dos desafios apontados é convencer os próprios trabalhadores a aceitarem a mudança para a produção voltada ao setor armamentista.