Latam amplia liderança aérea na América do Sul
Companhia registra lucros recordes, reduz alavancagem e avança sobre rivais ainda pressionadas após reestruturações judiciais
247 - A Bloomberg informou que a Latam Airlines se tornou a companhia aérea dominante na América do Sul ao emergir de forma mais robusta da crise que devastou o setor durante a pandemia. Seis anos depois de recorrer ao Chapter 11, nos Estados Unidos, a empresa apresenta desempenho superior ao das principais concorrentes e amplia sua presença regional.
No mercado acionário, os papéis da companhia acumulam valorização de 76% no último ano — o melhor resultado entre empresas comparáveis do setor — mesmo após recuo nas últimas três semanas. No mercado de dívida, os títulos em dólar com vencimento em 2030 e 2031 atingiram máximas históricas em 2026, com retorno de 3,36% nos últimos três meses.
O contraste com as rivais é evidente. Empresas como Avianca, Gol Linhas Aéreas e Azul Linhas Aéreas também recorreram à recuperação judicial nos últimos cinco anos, mas ainda enfrentam dificuldades para retomar os níveis operacionais anteriores à pandemia. A Latam, por sua vez, captou cerca de US$ 5 bilhões em ações e títulos conversíveis em 2022 — montante superior ao levantado pelas concorrentes — e promoveu corte anual de custos próximo de US$ 1 bilhão.
Para Peter Varga, gestor de portfólio sênior da Erste Asset Management GmbH, a estratégia adotada pela companhia foi determinante. “A Latam começou do zero logo no início, quando outras queriam evitar cortes profundos, apenas para depois se reorganizar muitas outras vezes, como a Gol”, afirmou. Ele acrescentou: “Além disso, a reestruturação da Gol e da Azul beneficiou bastante a Latam”.
Enquanto isso, Azul e Gol — que, ao lado da Latam, concentram o transporte aéreo no Brasil — seguem sob pressão financeira. A Azul entrou em recuperação judicial apenas em 2025 e deixou o processo na semana passada após levantar até US$ 950 milhões em novo capital, mantendo dívida líquida equivalente a 5,7 vezes o Ebitda. A Gol, que saiu do Chapter 11 no ano passado com até US$ 1,85 bilhão em financiamento, não registra lucro anual há quase dez anos e opera com alavancagem superior a seis vezes o Ebitda.
Lucros recordes e expansão de capacidade
A Latam acumula dois anos consecutivos de resultados históricos, recompensando investidores que apostaram na empresa durante o processo de saída da recuperação judicial, quando JPMorgan Chase e Goldman Sachs coordenaram emissão de dívida superior a US$ 2 bilhões.
Além da melhora no fluxo de caixa, a empresa ampliou sua capacidade operacional, abriu novas rotas e expandiu a frota, ao mesmo tempo em que reduziu a dívida líquida para 1,5 vez o Ebitda — abaixo das 4,2 vezes registradas em 2019 e inferior à meta interna de duas vezes.
Segundo Francois Duflot, da Bloomberg Intelligence, a liderança regional é um diferencial estratégico. “Outro ponto positivo é a participação de mercado da Latam na região, com liderança na maioria dos países, exceto na Colômbia”, afirmou. “A Avianca tenta replicar esse modelo, mas está alguns anos atrás e é mais voltada ao lazer, enquanto a Latam tem maior participação de passageiros corporativos e um programa de fidelidade mais robusto”.
Espaço limitado para os títulos
Apesar do desempenho recente, analistas avaliam que o potencial de valorização adicional dos títulos pode ser restrito. Ambos contam com opção de resgate nos próximos dois anos, e a dívida com vencimento em 2030 poderá ser refinanciada já em outubro, o que tende a limitar ganhos adicionais. Atualmente, os papéis com vencimento em 2030 são negociados com rendimento de 5,3%, enquanto os de 2031 pagam 5,9%.
“Embora o potencial de alta pareça limitado nesses níveis, acreditamos que o título ainda oferece um retorno razoável”, afirmou Alexandre Dray, diretor de pesquisa para mercados emergentes da Gimme Credit, ressaltando que a recomendação da casa para as notas é outperform.
Crescimento sob pressão de custos
Nem todos os indicadores, contudo, apontam aceleração contínua. Embora a receita operacional tenha avançado 16% no último trimestre de 2025, as despesas operacionais ajustadas cresceram 12% na comparação anual, pressionadas por aumento de salários e custos de manutenção. Ainda assim, especialistas avaliam que a empresa mantém vantagem estrutural frente às concorrentes.
“A Latam é a companhia aérea com menor alavancagem, então outras reduzirão a capacidade ou eventualmente sairão do mercado antes da Latam”, afirmou Varga.
A companhia trabalha para reduzir ainda mais o endividamento, com meta de levar a dívida líquida para menos de 1,4 vez o Ebitda em 2026. Paralelamente, prepara nova etapa de expansão, sobretudo no Brasil. Em setembro, assinou acordo para adquirir até 74 aeronaves de corredor único da Embraer. As primeiras entregas estão previstas para o segundo semestre de 2026, abrindo espaço para até 35 novos destinos. A definição das rotas e cidades brasileiras que receberão os novos aviões deverá ocorrer nos próximos meses