Petrobras amplia influência na Braskem após venda de participação da Novonor à IG4 Capital
Acordo bilionário muda governança da petroquímica e prevê reestruturação financeira com maior influência da estatal
247 - A Petrobras deve ampliar sua influência na gestão da Braskem após a Novonor, antiga Odebrecht, fechar acordo para vender sua participação na petroquímica à gestora IG4 Capital. A operação, estimada em cerca de R$ 20 bilhões, redesenha o controle da companhia e abre caminho para uma nova estrutura de governança compartilhada.
As informações foram divulgadas pelo jornal O Globo. Segundo a reportagem, o desenho do negócio atende ao interesse da estatal brasileira, que já divide o controle da Braskem, de assumir papel mais ativo nas decisões estratégicas da empresa.
O acordo envolve ações que estavam dadas como garantia a bancos credores — Bradesco, Itaú, Santander, Banco do Brasil e BNDES — após inadimplência da antiga Odebrecht. A dívida associada gira em torno de R$ 20 bilhões, conforme informado ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A IG4 Capital adquiriu esses créditos por meio de um fundo, em operação que normalmente inclui desconto sobre o valor original.
Para que a transação seja concluída, ainda será necessário o aval formal da Petrobras, que detém cerca de 36% do capital total da Braskem. Pelo acordo de acionistas vigente, a estatal possui direito de preferência e de venda conjunta (tag along), o que pode influenciar a efetivação do negócio.
Nova governança e divisão de poder
O novo arranjo societário prevê a assinatura de um acordo de acionistas entre a Petrobras e o fundo Shine I, administrado pela gestora Vórtx e utilizado pela IG4 para assumir a participação. De acordo com comunicado, a governança será “equilibrada”, com decisões condicionadas ao consenso no Conselho de Administração e nas assembleias.
O documento também estabelece “o direito à indicação, pelas partes, de número igual de membros para o Conselho de Administração e a diretoria estatutária”. Na prática, isso amplia a capacidade da Petrobras de influenciar diretamente a condução da empresa.
A divisão de responsabilidades já está desenhada: a IG4 Capital ficará encarregada de indicar executivos da área financeira, enquanto a Petrobras terá maior peso na área operacional. Para o cargo de CEO, será indicado Helcio Tokeshi, sócio da IG4, com trajetória na McKinsey, GP Investments e no governo de São Paulo. Já a diretoria financeira deverá ser ocupada por Carlos Brandão, ex-presidente da Iguá Saneamento.
Crise financeira e plano de reestruturação
A Braskem enfrenta uma situação financeira delicada, com prejuízo líquido de R$ 11 bilhões em 2025 e dívida total de US$ 9,4 bilhões (cerca de R$ 47 bilhões). A empresa chegou a ficar próxima de buscar proteção contra credores, cenário que reforça a urgência de uma reestruturação.
Em nota, a IG4 Capital afirmou que “um novo plano de reestruturação” será apresentado “pela nova diretoria executiva tão logo assuma suas funções”.
A situação é agravada por inadimplência em títulos da subsidiária mexicana, o que pode antecipar cobranças e levar a processos de recuperação judicial ou extrajudicial, inclusive no exterior.
Além disso, a companhia ainda arca com impactos financeiros do desastre ambiental em Maceió (AL), causado pela exploração de sal-gema. No fim de 2025, foi firmado acordo de R$ 1,2 bilhão em compensações ao estado de Alagoas, mas permanecem riscos de novos custos.
Cenário global e perspectivas
O negócio ocorre em um momento de baixa competitividade da indústria petroquímica global, pressionada por excesso de capacidade produtiva e redução de margens. Ainda assim, o cenário internacional pode oferecer alívio.
Segundo o consultor João Zuñeda, da MaxiQuim, o aumento recente dos spreads — diferença entre custos e preços de venda — favorece produtores das Américas. Ele destacou: “Na Europa e na Ásia, tem fábrica que está parando por falta de matéria-prima. Não vai faltar nafta para Braskem, até porque três quartos da nafta vêm dos EUA”.
Para o especialista, a maior presença da Petrobras na gestão operacional, aliada a esse contexto, pode acelerar a recuperação da empresa, com ganhos de eficiência e melhor integração entre produção e fornecimento de insumos.
Fim de um ciclo para a Novonor
A venda encerra um processo iniciado em 2018, quando a Novonor passou a buscar compradores para sua participação na Braskem. Ao longo dos anos, houve negociações com diversos grupos nacionais e internacionais, sem sucesso.
Em nota, a empresa afirmou: “A empresa reafirma o orgulho em ter contribuído para que milhares de profissionais de altíssima qualidade desenvolvessem ao longo dos anos um ativo de tamanha importância estratégica para o país”.
Com a operação, a companhia de origem baiana deixa definitivamente o setor petroquímico, no qual atuava desde a década de 1970.


