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Rede de supermercados Pão de Açúcar aponta incerteza sobre continuidade de suas operações

Balanço de 2025 revela capital circulante negativo, dívidas com vencimento em 2026 e alerta da auditoria sobre risco à continuidade operacional

Entrada de um supermercado da rede Pão de Açúcar, pertencente ao GPA (Foto: Divulgação/Grupo Pão de Açúcar)

247 – A rede de supermercados Pão de Açúcar, controlada pelo GPA, apontou “incerteza relevante” quanto à continuidade de suas operações, segundo informou o jornal Valor Econômico com base nas demonstrações financeiras divulgadas na noite de terça-feira (24). Nas notas explicativas do balanço anual de 2025, a companhia reconhece que há “condições [que] indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”.

O alerta está fundamentado no fato de que, em 31 de dezembro de 2025, o GPA apresentava capital circulante líquido negativo de aproximadamente R$ 1,22 bilhão. A principal razão para esse resultado é o volume de empréstimos e debêntures com vencimento previsto para 2026, que somam R$ 1,7 bilhão.

Apesar de destacar melhora em indicadores operacionais e geração positiva recorrente de caixa operacional, a empresa reconhece que permaneceu no prejuízo no período, fator que reforça as dúvidas sobre a sustentabilidade financeira da varejista no curto e médio prazo.

Prejuízo diminui, mas endividamento pressiona

No quarto trimestre de 2025, o prejuízo líquido das operações continuadas totalizou R$ 523 milhões, uma melhora em relação aos R$ 737 milhões registrados no mesmo período de 2024. No acumulado do ano, a perda foi de R$ 651 milhões, o que representa uma redução de 61% frente ao exercício anterior.

Pelo fluxo de caixa, o GPA encerrou 2025 com R$ 669 milhões em geração operacional, mais que o dobro do registrado em 2024. No entanto, o custo financeiro líquido das dívidas alcançou R$ 920 milhões no ano — R$ 325 milhões acima do valor do ano anterior — comprometendo os ganhos obtidos com a operação.

A dívida líquida consolidada, já descontado o caixa, atingiu R$ 2 bilhões em 2025, cerca de R$ 700 milhões acima do patamar registrado no ano anterior, ampliando a pressão sobre a estrutura de capital da companhia.

Plano de renegociação ainda sem contratos firmados

Para mitigar os riscos associados ao capital circulante negativo e aos vencimentos relevantes previstos para 2026, a administração informou que vem adotando iniciativas como negociações para alongamento de prazos de dívidas financeiras, redução do custo financeiro e de despesas, além da monetização de créditos tributários.

Contudo, a empresa admite que, até o momento, não possui contratos firmados para renegociação das dívidas nem para venda de créditos tributários. Segundo as notas explicativas, essas ações e os termos de eventuais acordos “não estão totalmente sob o controle da administração”.

De acordo com fontes citadas pelo Valor Econômico, o GPA teria cerca de R$ 17 bilhões em contingências fiscais e trabalhistas, o que amplia o quadro de incerteza.

Auditoria reforça alerta

O balanço foi elaborado com base no pressuposto da continuidade operacional, que prevê a venda de ativos e a liquidação de passivos no curso normal dos negócios. Ainda assim, a auditoria independente da companhia, a Deloitte Touche Tohmatsu, também destacou a existência de incerteza relevante relacionada à continuidade operacional, reiterando os riscos e mencionando os planos apresentados pela administração para tentar reverter o cenário.

A administração do GPA afirma que segue monitorando a execução das iniciativas anunciadas e a evolução dos indicadores de liquidez, “adotando tempestivamente ações adicionais que se façam necessárias”. O reconhecimento formal do risco nas demonstrações financeiras, porém, evidencia o desafio enfrentado pela tradicional rede varejista em meio ao elevado endividamento e ao aumento do custo financeiro no país.

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