Moda internacional traduz as inquietações do presente com estética de resistência
Temporada outono-inverno 2025/2026 resgata poder, questiona o status quo e revela desejo de abrigo emocional
As semanas de moda internacionais de outono-inverno 2025/2026 foram marcadas por um forte impulso de reflexão sobre o mundo contemporâneo. Em tempos de tensão geopolítica, crise climática e ameaças aos direitos civis, os desfiles deixaram claro que o vestuário ultrapassou seu papel decorativo para se tornar um espelho, por vezes sombrio, das complexidades da sociedade.
Em Milão, Paris, Nova York e Londres, a moda dialogou com o caos por meio de coleções que alternaram entre a armadura simbólica e o escapismo conceitual.
A estética do abrigo esteve em alta, com sobreposições extensas, casacos oversized e tecidos que evocam acolhimento. No entanto, longe de serem apenas peças práticas, esses itens carregam um simbolismo de proteção contra um mundo incerto.
Balenciaga e Rick Owens lideraram esse discurso visual com silhuetas imponentes, texturas densas e paletas escuras, remetendo a um desejo coletivo de se esconder e, ao mesmo tempo, resistir.
Entre alfaiataria de poder e liberdade de gênero
O retorno do "dress for success" dos anos 1980 reafirmou o poder da imagem como ferramenta de afirmação pessoal. Ombreiras estruturadas, cinturas marcadas e cortes precisos dominaram as passarelas, especialmente nas coleções da Saint Laurent, Tom Ford e Ludovic De Saint Sernin.
As referências ao officewear foram ressignificadas com um toque contemporâneo: peças que antes eram símbolos de imposição hoje representam autodeterminação.
Já no campo da fluidez de gênero, a narrativa foi conduzida por marcas como Miu Miu, Prada e Dior. A ausência de binarismos nas modelagens, o uso compartilhado de códigos masculinos e femininos e a ênfase em silhuetas curvilíneas mostraram que a moda está cada vez mais comprometida com a desconstrução de estereótipos. Miuccia Prada sintetizou bem esse espírito ao declarar: "É preciso arriscar-se para alcançar liberdade."
Criatividade como refúgio e provocação
Enquanto parte da temporada foi guiada pela sobriedade e pelo pragmatismo, outra parcela apostou no maximalismo e na ironia como formas de escapismo.
A Moschino, por exemplo, encerrou seu desfile com uma camiseta-manifesto estampada com “SOS Save Our Sphere”, traduzindo o apelo ecológico em linguagem pop. Marine Serre, Issay Miyake e CFCL também foram além da estética ao proporem novas formas de produção sustentável, com reaproveitamento de materiais, inovação têxtil e metas de neutralidade de carbono.
Na Rabanne, Julien Dossena apresentou uma ode ao punk setentista com toques cinematográficos e um desfile encenado na sede da Unesco. Foi um grito visual por solidariedade em tempos de fragmentação.
Já na Anrealage, a modelagem experimental e o uso de tecidos reativos à luz compuseram uma narrativa quase futurista, reafirmando a capacidade da moda de imaginar novos mundos.
O revival das peles, com consciência
Uma das tendências mais controversas desta temporada foi o retorno das peles às passarelas. Mas o revival veio acompanhado de inovação: peles sintéticas com acabamento premium, pelo de ovelha tosquiado e reaproveitamento de peças vintage compuseram o repertório de marcas como Simone Rocha, Ferragamo e Gabriela Hearst. A mensagem é clara: é possível resgatar o luxo tradicional sem abdicar da responsabilidade ambiental.
Em meio a esse panorama de tensões e resiliência, houve espaço também para o inesperado e o divertido. Um dos momentos mais comentados foi a referência visual de um look pagode reinterpretado de forma high fashion: calças oversized de alfaiataria com camisa de seda aberta e corrente no pescoço apareceram em versões sofisticadas nas coleções de marcas emergentes, provando que até a cultura popular brasileira pode ser elevada ao status de statement estético global.
A mistura entre casualidade e brilho, antes restrita aos palcos, agora ocupa passarelas europeias como forma de celebração identitária.
O legado da temporada
Mais do que tendências passageiras, o que se viu nesta temporada foi a consolidação de um novo paradigma: moda como meio de enfrentamento, questionamento e reconstrução.
Das formas amplas e protetoras à sensualidade explícita; da austeridade elegante à provocação lúdica, o vestuário segue sendo um campo fértil para refletir, contestar e, acima de tudo, imaginar.
A moda outono-inverno 2025/2026, portanto, não se limita a vestir corpos, ela toca ideologias, desafia convenções e oferece, ainda que brevemente, um refúgio poético para tempos tão densos.
