A arte das frustrações

Será muito bom se tiver chegado a hora de Palocci ler Sêneca, que ensina como usar as adversidades para pavimentar as realizações



O Destino costuma ser generoso. Mas é igualmente traiçoeiro. Qual dos senhores, prezados leitores, não coleciona frustrações? Um grande sonho sempre jogado para o porvir, um desejo paupável, mas nunca efetivado, talvez um filho que seja menos do que o esperado, um emprego almejado, um aumento de salário sempre adiado… Todos têm lá suas frustrações.

Antônio Palocci, por exemplo, o nome da hora, encontra-se à beira de uma grande frustração. No governo Lula-1, trabalhava para ser o candidato do chefe à Presidência da República, mas foi abatido pelos próprios erros caseiros. Agora, de volta à ribalta, vinha exercendo de fato e de direito o poder da República. Foi de novo apanhado em flagrante delito. De chefe da Casa-Civil, virou o ministro do apartamento-privado.

Foi Sêneca quem certa feita escreveu: “A verdadeira grandeza é ter em si a fragilidade de um homem e a segurança de um Deus”. O filósofo romano, um dos ícones do estoicismo, teve uma longa vida de vitórias e de derrotas. Buscou na análise das suas frustrações sabedoria para consolar os percalços do Destino. E força para pavimentar suas próprias realizações. Sêneca deixou um legado de ensinamentos sobre como aproveitar as adversidades para realizar antigos desejos – aquilo que o ditado popular chama de “fazer do limão uma limonada”. Ganhou a alcunha de “Filósofo das Frustrações”.

Tomara ter chegado a hora de Palocci ler Sêneca. Caso contrário, seremos nós, 190 milhões de cidadãos, que teremos que buscar consolo no filósofo. É certo que Palocci não leu Sêneca nas vezes anteriores em que foi apanhado em delito –desde a juventude, quando desapareceu com a caixinha do diretório acadêmico da faculdade, passando pela ervilhas superfaturadas da prefeitura de Ribeirão Preto, até o ataque covarde ao caseiro Francenildo, seu caso de mais triste memória. Pois se tivesse lido, compreendido e absorvido seus ensinamentos, estaria hoje buscando realizar desejos construtivos. Mas afinal, o que esse filósofo ensina de tão interessante?

A ARTE DAS FRUSTRAÇÕES

Lucius Sêneca foi um dos grandes de seu tempo. Nasceu no ano 4 AC, teve a sorte louca de viver no apogeu do império romano e de morrer logo no início da sua decadência, quando Nero, um ex-discípulo, tomado de um daqueles ataques de paranóia, decretou sua morte. Serenamente, aos 69 anos, Sêneca cortou as veias dos tornozelos e de trás dos joelhos. Como demorou a morrer, inspirado na morte honrada de Sócrates, pediu cicuta. O pintor Jacques-Louis David imortalizou a cena em uma tela de primeira grandeza, “A Morte de Sêneca”.

O filósofo legou uma obra vasta que trata de temas como sabedoria, amizades, alegrias, felicidade e sobre a índole dos homens. A parte mais interessante do seu pensamento diz respeito às frustrações. Ele é o grande filósofo dos homens frustrados. Era sobre essa parte que eu andava lendo quando estourou mais um escândalo envolvendo Antônio Palocci.

Sêneca escreveu que as “boas coisas que acompanham a prosperidade são para ser desejadas; mas as boas coisas que acompanham a adversidade são para ser admiradas”. Em seus “Ensaios Civis e Morais”, o filósofo diz que se os milagres se constituem de fato um mando sobre a natureza, aparecem eles com maior frequência na adversidade.

Durante toda sua vida Sêneca enfrentou ou testemunhou calamidades. Viu Calígula ascender ao trono e depois um próprio discípulo, Nero, enlouquecer no poder. Viu Roma ser devastada pelas chamas e Pompéia por um terremoto. A vida pessoal do filósofo foi também de muitas perdas. Ganhou muito, é claro. Foi senador, teve fama, dinheiro e poder. Comprou terras e vilas, colecionava mesas de cedro com pés de marfim e manteve um cotidiano de muito conforto material, apesar de pregar o estoicismo (tratarei desse aparente paradoxo em outro artigo).

Mas Sêneca também foi tragado pelas intrigas da corte. Chegou a ser exilado na ilha da Córsega, um dos pontos mais inóspitos do império –onde mais tarde nasceria Napoleão. Nos tempos do imperador Cláudio, ele virou joguete nas mãos da imperatriz Messalina, que havia armado um complô para livrar-se da irmã de Calígula, Júlia Livila, acusando-a de adultério. E Sêneca de ser o amante. Repentinamente, Sêneca se viu privado da família, dos bens, dos amigos, da reputação, da carreira política – e enviado para a Córsega.

Ao escrever sobre a vida do pensador romano, Allan de Botton (“Consolações da Filosofia”, Rocco, 2000) revela que Sêneca alternou períodos de autocensura e outros em que era tomado pela amargura. Qual de nós já não experimentou essas sensações diante de uma derrota? Muitas vezes o filófoso reprovou a si mesmo por não ter interpretado corretamente o momento político. Qual de nós já não se contorceu de lamentos diante de um erro?

Por conta das muitas experiências negativas, Sêneca acabou tecendo um vasto repertório de pensamentos sobre as frustrações – e de respostas sábias, serenas e sensatas a elas.

O ponto central de sua obra é a ideia de que suportamos melhor as frustrações para as quais nos preparamos, e que somos atingidos principalmente por aquelas que menos esperamos e não conseguimos compreender. Ou seja, se conseguirmos prever as adversidades que virão, quando elas chegam, parecem menos dolorosas. Se forem inesperadas, a dor da frustração é maior.

Sêneca conhecia um milionário chamado Védio Póllio, amigo do imperador Otávio Augusto, cujo escravo deixou cair uma bandeja com copos de vidro durante uma festa. Védio ficou tão furioso com o som dos vidros se quebrando que mandou matar o escravo, de forma cruel, atirando-o num fosso cheio de lampreias. Com ironia, Botton comenta que “Védio acreditava em um mundo no qual copos não se quebram em festas”; portanto, ficou extremamente frustrado.

A ARTE DAS REALIZAÇÕES

Com sabedoria, Sêneca nos aconselha a encarar de frente os desejos não realizados. E uma vez que encaramos racionalmente as conseqüências da não realização de um desejo, teremos grandes probabilidades de descobrir que os problemas fundamentais são mais modestos que as ansiedades que geraram.

Como Sêneca, a maior parte dos senhores, caros leitores, decerto tem uma vida intensa em realizações e frustrações. Há vitórias e derrotas nas muitas vidas de cada um – seja a vida pessoal, a familiar, a espiritual, a intelectual, a financeira ou a vida profissional...

Se paramos para contabilizar os fatos de cada uma das nossas muitas vidas nesta vida, provavelmente constataremos mais vitórias do que derrotas. Como nas vidas de Sêneca. Mas sempre haverá um grande desejo ainda não realizado, uma frustração imensa que, pela sua dimensão, é capaz de ofuscar as muitas vitórias.

Sêneca perguntaria: o que os leitores estão fazendo de concreto para realizar seus desejos? Quais os obstáculos reais e imaginários e como suplantá-los? Quais as consequências emocionais e materiais para a não realização? Respondidas essas questões, ensina ainda o filósofo, teremos grandes probabilidades de descobrir que os problemas fundamentais são mais modestos que as ansiedades que geraram. Ou seja, se não realizei esse ou aquele desejo, é porque até este instante não os havia encarado de frente. Portanto, permaneciam no doloroso campo das frustrações. O que fazer? Ora, fazer, simplesmente agir, aponta Sêneca.

Mas somente se o desejo for palpável e se conseguirmos prever as adversidades que poderão vir – ou as que inevitavelmente virão. É preciso estarmos preparados, principalmente, para os golpes do Destino imprevisíveis ou que não conseguimos compreender. Voltando ao exemplo Antônio Palocci, é certo que ele se imaginou impune e não previu que poderiam um dia descobrir a inexplicável multiplicação de seu patrimônio privado. Caso contrário, não demonstraria pânico paralisante diante da situação. Deve estar muito frustrado.

Por outro lado, para nós, os cidadãos, está muito fácil prever que esse é mais um caso de provável prevaricação e tráfico de influência que pode terminar na mais soberba impunidade. Como muitos outros casos, inclusive do próprio Palocci. Assim, ensina Sêneca, se conseguirmos prever as adversidades que virão, quando elas chegam, parecem menos dolorosas. Se forem inesperadas, a dor da frustração é maior. Nesse caso, uma frustração com as coisas da República. Mas os ensinamentos foram tecidos, principalmente, para a vida privada.

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