A Cachoeira que não é cascata

Assim como os mais de dois milhões de eleitores do senador Demóstenes Torres, também estou estarrecido

Assim como os mais de dois milhões de eleitores do senador Demóstenes Torres, também estou estarrecido. Por mais que nunca tenha lhe dado meu voto, sempre vi em sua figura altiva um diferencial em meio à podridão moral de seus pares, dos 81 componentes do Senado Federal. Demóstenes se destacava pela postura ética, combatente e sempre implacável contra a corrupção, as ilicitudes políticas. Sendo assim, para uma casa que tem José Sarney como dirigente mor e Renan Calheiros como expoente, nada mais interessante ter ali um senador com o perfil de Demóstenes Torres.

Dessa forma, o reeleito senador goiano, promotor de justiça e ex-secretário de segurança pública, irmão do atual procurador do Ministério Público goiano, Benedito Torres, fez carreira jurídica e política esmerado nas fortes críticas ao crime organizado, à corrupção patrocinada por políticos que confundem o público com o privado. Uma espécie de “tolerância zero” era o que ele defendia e apregoava, mas como o “tempo” cura o queijo, ele foi sendo consumido pelos “germes” e enfim sua verdadeira face veio à tona, e de repente, perplexos, percebemos que Demóstenes Torres é uma farsa, que as águas da vida mostram que uma Cachoeira enorme estava por trás da construção fictícia de honestidade e retidão.

Os membros do mensalão, um dos maiores escândalos políticos pós Nova República, foram achincalhados pelo senador: cadeia, pena de prisão e execração pública era o que bradava o antes altivo senador da tribuna. Grandes redes de televisão e aglomerados de mídia se renderam ao político conhecedor de vinho e curtidor de jazz e música erudita. Como dizem, “nada segura água de morro abaixo”. Agora ele mesmo um mensageiro, um office boy da contravenção, um leva e traz do maior bicheiro-empresário do centro oeste, que consegue misturar contravenção com negócios que vão desde produtos farmacêuticos, construtora e lojas de produtos importados, até agências de publicidade, uma verdadeira miscelânea, um conglomerado econômico criminoso, a qual mistura jogatina ilegal com presentes caros de casamento, Carlos Augusto Ramos, vulgo carlinhos Cachoeira, sempre foi na verdade o patrão de Demóstenes. Era aquele que mandava o senador anotar no bloco do bicho a fé depositada por milhões de goianos.

Assim vivem os goianos, atônitos por verem que até mesmo as mentiras mais bem construídas um dia caem, e com o nosso senador não poderia ser diferente, agora um gigante com os pés de barro, que acuado, se esconde dos holofotes, corre da imprensa como o diabo corre da cruz. Justo ele tão amigo da imprensa burguesa, faminta por figuras públicas que se diferenciam pelo trabalho em prol da ética na política através de um discurso conservador.

Nesse sentido, no momento nos resta esperar, esperar para ver até onde as águas dessa “cachoeira” conseguirão chegar, se derrubaram um altivo senador da república, por que não acreditar que poderão varrer do palácio um governante que se julga déspota, “maior”, que adora perseguir jornalistas e se imagina capaz de fazer o “melhor governo da vida dos goianos’, mas que para cumprir uma determinação constitucional de pagar o piso salarial aos professores joga por terra direitos adquiridos através de um plano de carreira e ainda vomita agressões verbais a uma categoria de trabalhadores com tamanha importância?

A “boa fé” do governador, segundo ele, e a assertiva de que muitos dos políticos goianos possuem relações com o bicheiro, deverão em breve mostrar que realmente todos aqueles políticos acostumados a “compra de votos”, e a política do “é dando que se recebe” devem mesmo se preocupar, afinal de contas poderá está vindo por aí um verdadeiro dilúvio político causado por uma aparente simples cachoeira que pelas fortes águas despejadas no mês de abril não deverá virar cascata. Águas e cabeças vão rolar.

Mamede Leão é professor e jornalista

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