A senhora já leu Maquiavel?

Sobre Dilma pairava um mistério. Quem era, afinal, aquela mulher gênero mamma búlgara sentada à minha frente?

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Há cinco ou seis anos, durante a festa anual para entrega do prêmio “Melhores do Ano”, da revista IstoÉ, também fui premiado com uma oportunidade rara. A mesa onde fiquei, situada junto à extremidade esquerda do palco, estava a poucos – pouquíssimos – metros das cadeiras onde se sentavam duas personalidades femininas ímpares da política brasileira: a então ministra Dilma Rousseff e a ex-senadora Heloísa Helena. Ambas de preto, muito chiques, pareciam bem contentes de estar ali. Mas as posturas de cada uma delas não eram as mesmas.

Heloísa Helena não cabia em si, dentro de um modelito fashion – emprestado por uma amiga deputada, ela dizia – que por sinal lhe caía muito bem. Transfigurada, para quem se habituara a vê-la sempre coberta pelos mesmos jeans andrajosos e blusas fim-de-feira, a então senadora podia enfim, do alto dos seus sapatos de verniz salto 8, mostrar o corpicho bem feito que Deus lhe deu. Aleluia. Se tivesse usado aquele vestido durante a campanha à presidência da República, cara ex-senadora, talvez o resultado que a senhora obteve nas urnas fosse outro. Mas isso é outra conversa. Na hora do discurso para agradecer o prêmio, Heloísa Helena não dispensou a lição de moral e concluiu dizendo que seu primeiro ensinamento aos filhos foi convencê-los de que “é proibido roubar”. Pena que, na força da idade, ela fosse excessivamente jovem para ser mãe de vários dos seus colegas do Senado e da Câmara.

Dilma, por seu lado, preferira um low profile. Discreta, quieta, ostentava um misterioso sorriso alla Gioconda em meio a uma sobriedade quebrada apenas pelo batom rubro-sangue – afinal, o dia era de festa, e ela era uma das melhores do ano. Corriam ainda os anos anteriores à campanha presidencial: os quilinhos a mais não tinham sido desfeitos, a vasta cabeleireira ainda não fora aparada, o lifting que lhe roubou dez anos da face era ainda apenas uma possibilidade futura. Seu discurso de agradecimento correspondeu plenamente à imagem e à postura matronal que ela trouxera para a festa. Foi sóbrio, um tanto bonachão, porém comoveu quando a então ministra discorreu sobre a necessária consciência de responsabilidade social e política que todo mandatário deve ter para fazer juz ao cargo. Exatamente a postura e a regra que ela parece preferir, agora que é a primeira mandatária do país.

Mas, naquela noite, bem acomodado na platéia da festa, a observar com atenção cada movimento das agraciadas, confesso que fiquei muito intrigado. Heloísa Helena, apesar do vestido chique, era a mesma de sempre, sem medo de ser feliz.

Sobre Dilma pairava um mistério. Quem era, afinal, aquela mulher gênero mamma búlgara sentada à minha frente, às vezes absorta em seus pensamentos, às vezes cordial e simpática diante daqueles que a vinham cumprimentar?

Sobretudo, onde estava aquela outra Dilma, a das fotos dos tempos da luta armada, aquela jovem destemida, capaz de resistir à tortura, capaz de enfrentar um inteiro pelotão policial, capaz até, segundo se dizia, de carregar na bolsa o cofre do Ademar, que teria surrupiado da casa do Doutor Rui em nome das hostes proletárias?

Mistério. Mas não muito. As mitologias já tinham me mostrado uma porção de divindades dotadas de duas ou mais cabeças, representando, cada uma delas, um aspecto das nossas almas – ou da nossa psique, para os que preferem a linguagem da psicologia. Os terreiros de candomblé e de umbanda já tinham me convecido de que quanto maior for o Oxalá de um filho de santo, maior é o seu exu. O budismo já me ensinara que quanto maior a luz, maior a sombra. Como se não bastasse, os anos de psicoterapia junguiana já tinham me convencido de que cada um de nós é habitado não apenas por um, mas sim por vários personagens internos que competem e lutam acirradamente para tomar o poder e se tornar senhor absoluto do pedaço. E, como no rol dos meus defeitos não se encontra, graças a Deus, a hipocrisia, não seria eu, que abrigo dentro de mim tantos contendores, inclusive alguns que detesto, que iria atirar a primeira pedra naquela senhora que um dia fora guerrilheira e que hoje desprendia aquela curiosa aura mista de mamma amorosa e de abadessa autoritária.

Hoje, anos passados, eleição vencida, empossada no cargo, posso jurar que elas estão todas aí, bem presentes na estrutura interna da nossa presidente: a mamma e a abadessa, mas também, não se iludam, a guerrilheira e a generala.

Todas elas – fato auspicioso na política brasileira – lêem livros, e gostam deles. Na situação presente, em que nossa presidente enfrenta sua primeira crise política importante, gerada pela presença não se sabe bem a qual ponto grata de um ministro da Casa Civil com ares de primeiro ministro, gostaria de perguntar, mais especificamente à generala: “A senhora por acaso já leu Maquiavel?” Estou certo de que, se não estivermos em público, a resposta não seria o silencio. E nem seria um palavrão em reprimenda à ousadia.

Por falar em silêncio, e referindo-se ao silêncio de Dilma no caso Palocci, a jornalista Eliane Cantanhêde, na Folha de hoje, domingo, afirma que “quem cala consente”, e aconselha a presidente a agir e falar. Sábio conselho. Apesar de que, cara Eliane, quanto a agir, quem pode ter certeza de que Dilma já não agiu? Quanto a falar, não serão os gritos da mídia e da opinião pública que, neste momento, estão falando por ela?

Seja como for, com queda ou sem ela, o ministro Palocci é hoje pássaro de asas mais curtas. O alcance dos seus vôos nunca mais será o mesmo.

Para terminar, já que citei uma colega brilhante, cito um outro igualmente sagaz, Jânio de Freitas, também na Folha de hoje. Em sua coluna ele diz que Maria Lima e Isabel Braga, duas repórteres do “Globo”, narraram que um dos presentes a uma reunião palaciana, quinta-feira, ouviu de Dilma Rousseff que vai “segurar Palocci no cargo até o fim”.

Amigo é para essas coisas. Como conclui Jânio, Dilma só não esclareceu “até o fim” de quê ou de quem.

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