Arrogância só atrapalha

Atitudes de Palocci e dos que o defendem alimentam ainda mais as suspeitas

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O ministro Antonio Palocci já sofreu várias acusações na Justiça e se livrou de todas elas. Até mesmo daquela que o levou a se afastar do Ministério da Fazenda no primeiro mandato de Lula, a da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos Costa. Os processos contra Palocci vêm desde os tempos em que foi prefeito de Ribeirão Preto.

Pelo que se vê até agora, Palocci deverá também se livrar das acusações de enriquecimento súbito e provavelmente ilícito. Nunca antes na história deste país, nem mesmo no episódio que ficou conhecido como “mensalão”, viu-se um esforço tão grande para abafar um potencial escândalo e proteger a figura de um ministro que não é qualquer ministro – é o primeiro ministro (o que não quer dizer primeiro-ministro) do governo de Dilma Rousseff.

Palocci não tem a proteção apenas do governo e de parlamentares que o apoiam. É, e todos sabem disso, muito querido dos líderes empresariais de praticamente todos os segmentos da economia brasileira. A começar dos banqueiros, que se tomaram de amores por ele desde a campanha eleitoral de 2002, consolidando a admiração pela execução da política econômica no tempo em que foi ministro da Fazenda.

O chefe da Casa Civil tem a seu lado um exército digno de grande potência: o governo federal, os partidos políticos, tendo à frente o PT e o PMDB, empresários dos setores financeiro, industrial e agropecuário e, embora tentem disfarçar, alguns dos principais nomes da soi-disant oposição a Dilma Rosseff – mas que não quer brigar com um tão categorizado protegido das classes produtoras e braço direito da presidente.

Tudo indica, assim, que Palocci superará esse episódio. O resultado da votação ontem na Câmara, para que fosse convocado – 266 contra, 72 a favor, 8 abstenções – é apenas uma amostra sua força. Os riscos que corre estão restritos a uma posição do Ministério Público Federal, que pode encontrar algum indício contra ele e pedir ao Supremo Tribunal Federal autorização para investigá-lo. Mas se duvida até mesmo que os ministros que já o livraram de outros processos dêem essa autorização.

Caso encerrado! Aí é que está o perigo. Essas palavras, com ligeiras variações, têm sido ditas por vários próceres do governismo, numa atitude arrogante que prejudica o próprio Palocci. Só quem pode decretar um caso encerrado é o Supremo Tribunal Federal e assim mesmo quando já não cabe mais nenhum recurso. Fora disso, é uma demonstração de prepotência e, especialmente, tentativa de fugir do assunto. Só faz aumentar as suspeitas contra Palocci.

Dar o caso por encerrado sem que as explicações tenham sido dadas, é, para a maioria das pessoas, especialmente as mais esclarecidas, confissão de culpa. É claro que a oposição ao governo e os adversários internos de Palocci querem se aproveitar do episódio para desgastar o governo de Dilma, derrubar o ministro, fazer a luta política. Mas isso não pode ser pretexto para escapar pela tangente. Uma boa defesa é uma excelente arma na luta política.

Por mais que queiram dar aparência de normalidade aos fatos, não é normal aumentar o patrimônio, em quatro anos, de R$ 375 mil para mais de R$ 7 milhões. Principalmente quando esses quatro anos foram ocupados com as atividades de deputado federal. Prestar consultoria a empresas ao mesmo tempo em que se exerce um mandato parlamentar já é uma excrescência, só aceita pelos que se pautam apenas pela legalidade, deixando de lado a moralidade e a ética. A partir daí, qualquer suspeita é justificada.

É difícil convencer pessoas mais ou menos informadas que todo o dinheiro ganho por Palocci, com consultorias ou de qualquer outra maneira, foi inteiramente aplicado em dois imóveis. Um ex-ministro da Fazenda, profundo conhecedor da economia nacional, consultor muito bem remunerado, iria jogar todo seu dinheiro num único tipo de aplicação, e em imóveis luxuosos?

É lícito comprar imóveis em nome de uma empresa, mas por que se faz isso? Quanto a escritórios, é mais ou menos normal. Quanto a apartamentos há várias razões contábeis e fiscais, mas há também uma política: na declaração de imposto de renda da pessoa física, a que é apresentada publicamente pelos candidatos, basta declarar a propriedade de cotas da empresa tal. Os imóveis em nome da empresa não aparecem. A Receita sabe que existem, claro, mas o público não.

São especulações, sim. Palocci tem o direito à presunção de inocência. Mas especulações plenamente justificadas diante da postura do ministro e dos que o tem defendido. O assunto pode ser encerrado e superado, mas ficarão sequelas e o ministro Palocci estará sob suspeita permanente, o que não é bom para ele e para o governo de Dilma Rousseff.

A FSB -- agência de comunicação que tem vários contratos com o governo federal e é muito próxima de Sérgio Cabral e Fernando Pimentel -- foi contratada por Palocci para administrar a crise em que está envolvido. Como foi decretado que o caso está encerrado, ele não precisaria contratar a agência, mas esse é um problema do ministro. Se eu fosse da agência e chamado a opinar, daria ao cliente duas opções:

1) Se nada tem a temer e nada está errado, explique tudo direitinho e responda a todas as perguntas.

2) Se não dá para explicar, peça demissão e vá para o escritório de R$ 882 mil fazer consultorias para ganhar ainda mais dinheiro. O governo de Dilma Rousseff lhe será eternamente agradecido.

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