As conversas do mundo real em Brasília

O que se comenta e se diz sobre Palocci não é o que se declara publicamente

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Há uma Brasília das declarações oficiais, das notícias em on. Formal, ostensiva. E outra, muito mais fervilhante, do mundo real, das coisas como elas são. Essa às vezes aparece em off na imprensa, mas geralmente nem isso. Fica restrita a gabinetes e corredores, apartamentos funcionais, casas no Lago Sul, escritórios de lobistas e grandes empresas.

A Brasília das declarações oficiais é essa que estamos vendo na imprensa. Políticos governistas dando declarações enfáticas em defesa do ministro Antonio Palocci, articulando a chamada blindagem para que cessem as denúncias e o Congresso nada investigue. E políticos oposicionistas divididos em três grupos: os que querem deixar tudo como está e não escondem isso, os que fingem indignação e articulam investigações já sabendo que não acontecerão e os realmente dispostos a derrubar o ministro.

Na Brasília do mundo real, a conversa é outra, nada formal. O que se diz é que Palocci só não caiu ainda só porque recebe a proteção, e que proteção, do chamado “mercado” – dos bancos e financeiras, das grandes empresas, do agronegócio e, por consequência, do comando de parte dos veículos de imprensa. O mercado quer que Palocci fique, porque sabe ter nele o mais confiável representante no governo e, mais do que isso, no Palácio do Planalto. Empresários e lobistas dizem claramente que sem Palocci o PT inconfiável dominará o governo.

Essa posição do mercado explica em parte a postura de alguns líderes oposicionistas que veem a política com perspectiva de longo prazo, como José Serra e Aécio Neves. A maioria dos oposicionistas quer desgastar o governo de Dilma Rousseff e o ministro Palocci, mas não quer derrubar o chefe da Casa Civil. Primeiro, porque o mercado disse a eles que quer manter Palocci no Planalto e eles não querem afrontar essa instituição tão poderosa. Segundo, porque sabem que, ficando, Palocci estará sob permanente suspeita e Dilma terá não um primeiro ministro, mas um primeiro-ministro. O governo e a presidente ficarão mais frágeis.

Os governistas estão divididos. Fingem que não, mas estão. Há muitos petistas e peemedebistas, entre outros, que gostariam muito de ver Palocci fora do poder. Mas a ordem que veio de cima é de proteger o ministro, impedir que a oposição cresça em cima do episódio. Pouquíssimos ousam desafiar a diretriz, manifestar discordância e arcar com o ônus de desagradar a presidente e o possível sobrevivente chefe da Casa Civil. Em off, vários reconhecem que, se fossem oposição, não perderiam essa oportunidade de derrubar um ministro. Alguns chegam a ironizar a postura vacilante dos tucanos.

Há outros elementos no mundo real que não aparecem no noticiário. Ao se falar do poder em Brasília – como, na verdade, em qualquer lugar – devemos nos lembrar que há poucos, muito poucos, que podem atirar a primeira pedra. Há rabos presos por todo o Congresso e por toda a Esplanada e, com todo o respeito, até mesmo em tribunais. Muitos políticos defendem os colegas, ou se mantêm omissos diante de acusações graves, com medo de serem os próximos da fila. Há uma espécie de confraria mafiosa, de proteção recíproca. De vez em quando, alguém é sacrificado porque exagerou, ou para que as aparências sejam mantidas.

Mais interessantes são os comentários e opiniões que circulam em Brasília sobre o que Palocci realmente fez para ganhar tanto dinheiro em tão pouco tempo. Ninguém, mas ninguém mesmo, acredita que ele prestou consultoria no sentido estrito. A dúvida maior é se foi tráfico de influência ou apropriação privada de caixa dois de campanha. Ou, talvez, as duas coisas juntas. Convictos defensores da permanência de Palocci no governo não escondem, em conversas privadas, essa opinião. Não há provas de que uma coisa ou outra tenha acontecido, mas quem vive no mundo real do poder conhece seus meandros.

Quem tem patrimônio elevado e está habituado às manhas para iludir o fisco não tem a menor dúvida em dizer que se Palocci investiu R$ 7,5 milhões em dois imóveis, tem muito mais do que isso. Onde está esse dinheiro? Na declaração de renda do ministro não está. Outro comentário frequente é a razão do ministro para comprar um apartamento em nome de uma empresa da qual tem 99,9% das cotas – ou seja, é só dele mesmo. Qual a vantagem? A resposta, quase invariável, é de que Palocci fez isso para não ter de declarar o imóvel em seu imposto de renda, mas apenas na declaração da pessoa jurídica, que não aparece publicamente.

Petistas mais identificados com o partido chegam a fazer comentários em que comparam Palocci ao ex-ministro José Dirceu e ao ex-tesoureiro Delúbio Soares. Dizem, com todas as letras, que Dirceu e Delúbio captaram dinheiro de empresas em benefício do PT e de um projeto político. Palocci, em causa própria. Não se pense que todos os petistas que se esgoelam em defesa do ministro gostam dele. Alguns coincidem com a opinião do mercado, de que a permanência dele na Casa Civil é fundamental para a presidente Dilma, mas é apenas o pragmatismo superando a vontade. “Ele é fundamental”, chegou a dizer o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho.

Ninguém se esquece que Palocci tem problemas desse tipo desde que exerceu o primeiro mandato na prefeitura de Ribeirão Preto. Nada se provou contra ele, que saiu ileso dos processos abertos por causa de contratos estranhos e promoção pessoal. Há fatos mal explicados envolvendo o arquivamento de um dos processos, com um ministro decidindo contra ele e depois voltando atrás. Tudo bem, são apenas especulações e o que importa é que Palocci é, oficialmente, um ficha limpa. Mas ninguém acha que o hoje ministro foi um prefeito acima de qualquer suspeita e que se cercava de pessoas indiscutivelmente honestas – a chamada “República de Ribeirão Preto”.

Depois foi o caso do caseiro Francenildo Santos Costa, que teve o sigilo bancário violado. Na verdade, o episódio envolvia muito mais do que isso e o caseiro foi apenas o detonador da demissão do então ministro da Fazenda. Não se fala mais no assunto, mas havia uma casa suspeita no Lago Sul, onde a tal “república” -- amigos que Palocci trouxe de Ribeirão Preto -- se reunia para negócios e lazer. O ministro havia negado, categoricamente, ter frequentado o local, sendo desmentido por Francenildo.

Palocci teve de deixar o ministério por causa do caseiro, mas por 5 a 4 o Supremo Tribunal Federal o livrou do processo pela violação do sigilo bancário e assim ele pôde assumir, sem receio, a coordenação da campanha de Dilma Rousseff e, depois, a chefia da Casa Civil. Formalmente limpo, mas indubitavelmente com uma nuvenzinha suspeita pairando sobre ele.

Tem de ser muito bobo, no mundo real de Brasília, para achar que Palocci não se aproveitou de sua condição de deputado federal muito próximo do poder para ganhar dinheiro de empresários. E o que ele poderia oferecer a esses empresários, exercendo funções importantes na Câmara dos Deputados e frequentando os gabinetes na Praça dos Três Poderes e na Esplanada dos Ministérios? Não venham dizer a experientes raposas de Brasília que era consultoria formal. Alguns chegarão a dar gargalhadas.

Ainda nas conversas que existem, mas não aparecem publicamente, o que reforçou a ideia de que há dinheiro de campanha no meio dessa história foi a notícia de que em 2010, quando Palocci estava na coordenação da então candidata Dilma, a empresa do ministro faturou R$ 20 milhões, sendo R$ 10 milhões em novembro e dezembro, quando a presidente já estava eleita e se sabia que Palocci seria ministro. Muito dinheiro em um ano só, ainda mais sendo um ano eleitoral em que Palocci estava no comando de uma campanha. A explicação de que os pagamentos foram feitos no fim do ano porque os contratos estavam sendo rescindidos também provoca gargalhadas.

Mas aí as opiniões se dividem: uns acham que era mesmo dinheiro recolhido para a campanha, outros que era para assegurar que os doadores tivessem um interlocutor poderoso no novo governo. Pode ser as duas coisas, comenta-se.

São especulações, ninguém tem provas de que os porta-vozes de Palocci não estão falando a verdade. Ele pode mesmo ter exercido atividades de consultor quando era deputado e ganhou muito dinheiro porque ex-ministros têm alto valor de mercado. Isso pode não ser ético, no entendimento de alguns, mas é legal e, portanto, nada há a investigar.

Mas, discursos e declarações fora, em Brasília ninguém acredita nisso.

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