Ataques à democracia levam Bolsonaro ao isolamento e o que vai 'ficando é um governo de milicianos , afirma Dirceu

Para o ex-ministro José Dirceu, Jair Bolsonaro está cada vez mais emparedado "e vai ficando cada vez mais um governo de um núcleo de milicianos (…), ele vai acabar se isolando na base neopentecostal dele, na base do direita mesmo, com 7 a 10% do eleitorado de extrema-direita"

José Dirceu e Jair Bolsonaro
José Dirceu e Jair Bolsonaro (Foto: Lula Marques | Marcos Corrêa/PR)
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Rede Brasil Atual - O ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu afirmou nesta segunda-feira (1°) que as diferentes forças da sociedade brasileira contra os ataques do presidente Jair Bolsonaro à democracia vão levar o governo a um isolamento. Dirceu mencionou manifestações como as notas da Associação do Juízes Federais (Ajufe), do Conselho Nacional do Ministério Público, os manifestos “Basta” e “Estamos Juntos” e a ação nas redes “#Somos70porcento“. Citou ainda os editoriais de jornais e articulistas da imprensa comercial contra os ataques de Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal e ao Poder Judiciário.   

Segundo o ex-ministro, em entrevista aos jornalistas Rafael Garcia e Mauro Ramos, na Rádio Brasil Atual, essas manifestações, e as pesquisas de opinião, mostram que Jair Bolsonaro se isola. “E vai ficando cada vez mais um governo de um núcleo de milicianos (…), ele vai acabar se isolando na base neopentecostal dele, na base do direita mesmo, com 7 a 10% do eleitorado de extrema-direita.” 

Precarização do trabalho e luta política

“Achar que não vai haver luta no Brasil porque houve a precarização do trabalho, o trabalho por aplicativo, o home office, porque tem milhões de desempregados (…) Vai haver luta política e do jeito que o Bolsonaro está conduzindo, ele quer o caos para justificar a GLO (Garantia da Lei e da Ordem), o artigo 142 da defesa nacional, o estado de sítio. Porque o objetivo dele é uma ditadura e ele não esconde nem os militares, eles se consideram os salvadores da pátria a não ser que no exército brasileiro surja uma corrente política que diga um basta a tudo isso”, destacou Zé Dirceu.

Sobre o inquérito das fake news, que pesa sobre o governo de Jair Bolsonaro, Zé Dirceu afirma que espera que a justiça eleitoral traga as investigações que estão sendo feitas no STF, no inquérito no inquérito das fake News, e na CPI das fake news. 

“Estando comprovado o uso das fake News e do dinheiro ilegal na campanha eleitoral a chapa tem que ser cassada porque é abuso do poder econômico. Eu vi o ministro Gilmar Mendes muito sereno e muito tranquilo, muito didático explicando que o TSE leva em contra qual foi o peso que teve o abuso do poder econômico, se aquilo mudaria o resultado. Mas, ora se houve crime, houve crime ( …). Na verdade, aquela eleição foi contaminada pelas fake news e isso foi determinante na derrota de Fernando Haddad no segundo turno, pelo dinheiro ilegal na campanha”, afirmou.

“Por isso fizemos a petição do impeachment e precisamos pressionar para que o Rodrigo Maia coloque em votação”, disse.

Frentes

Zé Dirceu afirmou ser a favor de uma frente de esquerda, com a juventude, com as mulheres. E que agregue os oito partidos que se uniram pelo impeachment de Bolsonaro (PT, PCdoB, Psol, PSB, PDT, PCB, PCO, PSTU e UP). Segundo ele, a unidade de todos os democratas é para enfrentar Bolsonaro e tirá-lo legalmente, constitucionalmente, via impeachment ou pela Justiça.

“Vem o Mourão, aí é outra discussão. Mas o que temos que fazer é consolidar uma frente de esquerda popular com um programa que mude a estrutura social”, afirma, mencionando uma retomada das políticas sociais, de distribuição de renda e de soberania.

“Eles querem enterrar a era Vargas e a era Lula, querem enterrar o Estado de direito. Basta ver a política do Bolsonaro, basta ver a vergonhosa venda da Embraer. Levaram tapa na cara, um chute no traseiro dos americanos. E essa entrega de Alcântara. E desmonte dos bancos públicos”, diz Zé Dirceu.

Segundo ele, o papel estratégico dos bancos públicos, o mercado interno, o desenvolvimento científico e tecnológico e a distribuição de renda revolucionariam o Brasil, como a China se revolucionou. “Brasil é desenvolvido, tem base industrial e tecnológica, é uma potência científica, alimentar e climática. É um país que tem todas as condições de se desenvolver. Até o Guedes reconhece que os bancos fazem o cartel. Até ele reconhece que essa estrutura tributária é vergonhosa. As classes trabalhadoras são sangradas com impostos”, afirmou.

Política externa

Na entrevista, Dirceu também mostrou preocupação com a condução da política externa subalterna aos Estados Unidos. “É uma coisa gravíssima, pois o Brasil vota na ONU e agora está votando com os Estados Unidos, contra os interesses do Brasil. O mais grave é a submissão das Forças Armadas brasileiras ao Comando Sul dos Estados Unidos e à Otan. Essa história do mundo ocidental cristão judaico como se nós fossemos uma nação europeia branca é uma coisa absurda.”

Dirceu também destaca como “aberração” do governo Bolsonaro e dos militares o apoio à política do ministro Paulo Guedes de desmonte do Estado, deslizando para o neoliberalismo e se “assenhorando” do orçamento da União. “Fizeram uma reforma da Previdência que transformou os militares em uma casta. Dobraram salário, verba de representação, ajuda de custo, gratificação por estudo e aposentam sem limite de idade. Estamos vivendo um militarismo evidente. Bolsonaro e eles são uma coisa só.”

Militares

Zé Dirceu considera que Bolsonaro tenta tirar proveito do caráter “salvacionista” das Forças Armadas, ao compor seu governo com grande base militar. “As forças armadas nunca se submeteram ao poder civil, nem depois de 1988, nesses 30 anos. Na verdade, sempre se colocaram como poder moderador ou como tutela do país.”

O ex-ministro cita manifestações pedindo intervenção militar e a ocupação de cargos do Palácio do Planalto, em ministérios e espalhados em toda administração pública federal. “O ministério da Saúde está totalmente ocupado por militares.”

“Esse salvacionismo faz parte da história do Brasil. Foi assim de 1937 a 1945 porque foi um governo do Estado-Maior. Góes Monteiro, que era chefe do estado-maior pediu a Francisco Campos que fizesse a cópia da Constituição polonesa (1937)”, observa.

Ele lembra que, antes do regime de 1964 a 1985, houve tentativa de golpe em 1955, derrotada pelo marechal Henrique Teixeira Lott. E também em 1961, derrotada por Brizola, que tinha apoio da Brigada Militar e do Terceiro Exército. 

“Se nós observarmos as declarações do general Villas Bôas, elogiando entrevista da Regina Duarte para a CNN, é uma coisa estarrecedora. Ou a nota dos três comandantes, do Exército, da Marinha e da Força Aérea elogiando o golpe de 64 (…) Em qualquer país do mundo isso daria afastamento e processo disciplinar, senão prisão por crime de lesa-pátria. Eles não podem fazer política. A nação entrega armas aos militares para eles defendê-la e não para exercer poder político. Quem exerce o poder político são a Câmara ou Senado e a Presidência da República.”

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