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Bravas mulheres

Cada dia mais mulheres em todo o mundo se unem na luta contra a violência e a injustiça sofrida ao longo dos séculos até os dias de hoje

Há pouco tempo li um estudo sobre mulheres na Índia que muito me impressionou. A passagem do Dia das Mães me recordou esta história emocionante e minha preocupação se voltou mais uma vez para as mulheres brasileiras que em pleno século XXI ainda sofrem com maltratos, estupros e muitas vezes com a própria vida.

E o mais alarmante é que, na maioria das vezes, essas maldades são cometidas por seus companheiros, ex-companheiros, padrastros, parentes próximos ou vizinhos do sexo masculino. A violência está dentro de casa ou próxima dela, onde deveria ser, exatamente, seu refúgio maior. Depois de ver uma mulher apanhando do marido, a Indiana Sampat Pal Devi, interveio e insistiu para que ele parasse. O ato fez com que ela acabasse apanhando também. No dia seguinte, Sampat voltou na casa da mulher com outras cinco mulheres munidas de varas de bambu e juntas deram uma surra no covarde.

A notícia se espalhou e inúmeras mulheres começaram a se aproximar dela solicitando ajuda com medidas semelhantes e muitas outras se apresentaram para participar da tarefa. Assim surgiu em 2006, a Gangue Gulabi, as mulheres de sari rosa, que se uniram na luta contra a violência doméstica, casamento infantil ou outras situações de injustiça contra mulheres.

O movimento foi tema de filme e está sendo visto em todo o mundo. É com imensa alegria que percebo iniciativas do gênero se multiplicando por parte de homens e mulheres contra injustiças sofridas pelas mulheres, num movimento de resistência que se alastra mundo afora. É inadmissível que um bilhão de mulheres em todo o mundo ( uma em cada três existentes ) já tenham sido espancadas ou forçadas a ter relacões sexuais, segundo dados da ONU.

Os eventos clamam por mudanças culturais e de proteção e atenção às vítimas da violência sexista. No Brasil, apesar da Lei Maria da Penha, uma grande conquista em defesa da mulher, as estatísticas ainda causam tristeza, preocupação e estudos de novas medidas por parte do governo e da sociedade. Números do Anuário  das Mulheres  Brasileiras 2011, divulgado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres e pelo Dieese, mostram que quatro entre cada dez mulheres brasileiras já foram vítimas de violência doméstica.

Dados da Central de Atendimento à Mulher  revelam o aumento da formalização  das  denúncias. Os atendimentos  da central subiram  de 43.423 em 2006 para 734.000 em 2010, quase dezesseis vezes mais. Isso significa que a lei Maria da Penha está cumprindo o seu papel. Mais mulheres, a exemplo das indianas, tem tido a coragem de lutar contra seus agressores.

A cidadã  brasileira conta também com o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, desenvolvido pela Secretaria de Políticas para as Mulheres, da Presidência da República. Lançado em 2005, o plano traduz em ações o compromisso do Estado de enfrentar a violência contra a mulher e as  desigualdades entre gêneros.

Uma dessas ações práticas é o Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência contra a Mulher, criado três anos depois. A iniciativa conta com investimentos de R$ 1 bilhão em projetos  de educação, trabalho, saúde, segurança pública e assistência social  destinados a mulheres em situação de vulnerabilidade social. Esta é uma clara demonstração de que os governos Lula e Dilma se mobilizaram para mudar a realidade da mulher brasileira.

É importante, no entanto, que a sociedade se envolva ativamente na causa. Foi emocionante, por exemplo, ver no Brasil, em fevereiro deste ano, manifestações em vários estados se unindo ao movimento mundial "Um bilhão que se ergue", idealizado pela escritora americana Eve Ensler que convidou homens e mulheres a dançar juntos numa manifestação coletiva pelo fim da violência, apontada pelas estatísticas contra um bilhão de mulheres no mundo.

Depois dos eventos em várias cidades do planeta, Eve Ensler publicou uma linda mensagem lembrando aos ativistas que o evento "mostrou que a violência contra a mulher não é uma questão nacional, tribal, étnica ou religiosa, mas sim um fenômeno global, e é graças a essas manifestações de solidariedade mundial que as mulheres sobreviventes podem estar confiantes de que a violência não é culpa delas".

Deixo aqui meu apoio incondicional as mulheres brasileiras. Me alio ao bilhão de mulheres maltratadas na sua luta, silenciosa ou ruidosa, contra a violência. Tenho a certeza de que minha mãe, D. Josefa, que durante toda a vida me passou uma imagem de força e coragem, gostaria de conhecer esta história das mulheres indianas, como promessa de dias melhores para as mulheres do Brasil.