Conheço o Serra e seu apetite. Já fomos vizinhos no Palácio...

A insistência de José Serra em candidatar-se na vaga do Aécio não me surpreende. Nem os meios, às vezes obscuros, que ele usa para chegar a determinados fins

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A insistência de José Serra em candidatar-se na vaga do Aécio não me surpreende.  Nem os meios, às vezes obscuros, que ele usa para chegar a determinados fins.   

Já fui vizinho do José Serra. 

Faz muito tempo, quando Franco Montoro governava São Paulo e o Roberto Gusmão, recém-nomeado Chefe da Casa Civil, convidou-me para ser Assessor de Imprensa do governador. 

Montoro virava o seu primeiro ano (de 1983 para 84) com muitos problemas internos e externos.  

Externos, havia o PT, que dominava a mídia sem precisar de controles institucionais. 

O PT,  e sua mensagem inovadora, conquistara o coração e as mentes dos repórteres. E quem faz o jornal caminhar para esta ou aquela direção, nem sempre é o patrão. 

Ah…sim, outro problema do governo Montoro era o grupo de jornalistas do chamado comitê de imprensa do Palácio dos Bandeirantes. O “comitê” acostumara-se ao estilo malufista de governar.

Montoro era ridicularizado sistematicamente nos jornais. 

Falava em hortas comunitárias, tinha a mania de trocar o nome das pessoas. 

Registrar supostas gafes do governador. Nisso se resumia a cobertura do palácio.

Convite feito, lá fui eu para os altos do Morumbi. A Assessoria de Imprensa ficava no térreo. O gabinete, de onde partiam as decisões, era no primeiro andar. 

Primeira providencia. Instalar minha sala ao lado do governador. Havia um problema. A sala pertencia ao  conjunto onde se alojava a  Secretaria de Planejamento.  O secretário em questão era o José Serra. 

Comecei a conhecer a teimosia do nosso Secretário de Planejamento (digo “nosso” porque estávamos no mesmo governo) na briga pelo sofá. 

Na sala, cedida por José Serra sob pressão do próprio governador – ele dizia que a sala era uma reserva técnica da secretaria, usada eventualmente – havia um sofá, que simplesmente desapareceu da noite para o dia. 

Através de investigação feita pela minha secretária, o sofá foi localizado numa outra sala do Planejamento. Com certeza, outra reserva técnica.

O segundo enfrentamento Secretária de Imprensa x Planejamento, ocorreria pouco depois. Chego de manhã, vou dar um telefonema…cadê o telefone? 

De novo aciono a secretária, ótima investigadora. Ela descobre o aparelho instalado no gabinete do Serra. Ela fica sabendo que o telefone fora retirado por ordem do próprio Secretário. 

Alegação: a linha era dele. Se a Imprensa quisesse outra  aliás, a única que admitia ligações interurbanas, que se virasse. 

Assim, durante semanas o Assessor de Imprensa do governador, para fazer um interurbano, tinha de descer ao térreo, na chamada “sala de imprensa” ou ir ao gabinete de algum outro secretário. 

Isso num ano extremamente rico e ao mesmo tempo de grande tensão política. Foi o ano da campanha das Diretas Já, outra obsessão de Montoro bem mais importante do que hortas comunitárias. 

Montoro sabia que a aprovação das eleições diretas dificilmente passaria no Congresso. 

Sabia também que, nessa hipótese, o candidato da oposição seria Ulysses Guimarães. 

Um nome que os militares não admitiam, e naquele ano, eles ainda tinham força dar um golpezinho a mais. 

Bastaria, por exemplo, um repeteco do Pacote de Abril de Geisel. Fechavam o Congresso, cassavam meia dúzia, mexiam no artigo da Constituição que previa eleições diretas. 

Afinal, uma revoluçãozinha a mais ou a menos...

As Diretas Já, sob a inspiração de Franco Montoro, como que legitimaram a eleição indireta de Tancredo Neves. 

No Natal daquele 1984 - Jose Serra talvez ainda se lembre -  ele recebeu, entre dezenas ou talvez centenas de presentes, um telefonezinho de plástico , embrulhado com um bilhete assinado: “Ao José Serra, com os  votos de feliz Natal”. Assinado: Da Secretaria de Imprensa.

 P.S. – Em 1984, Montoro não trocou nomes. Apenas, numa entrevista, chamou o Rei da Suécia, que visitava o palácio, de “Imperador da Suécia”. Uma gafe insignificante se considerarmos o conjunto da obra.

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