Crise: é preciso uma resposta política
Foi exatamente isso que o Brasil fez no primeiro ciclo da crise. Mas as grandes nações têm patinado na compreensão desse aspecto
Um dos principais equívocos no enfrentamento da crise internacional é a insistência em apostar em decisões “puramente técnicas”, como se a economia fosse uma área exata do conhecimento. Não é: a economia é uma ciência humana, intimamente ligada aos movimentos das sociedades. Portanto, há de se abandonar esse mito tecnicista e admitir que as soluções para a crise exigem decisões políticas.
Foi exatamente isso que o Brasil fez no primeiro ciclo da crise — o mais agudo até agora. Mas as grandes nações têm patinado na compreensão desse aspecto. No entanto, sem esse norte político, não sairão do fundo do poço.
Nos EUA, para piorar, as poucas decisões políticas tomadas até o momento indicam uma total falta de rumo. É o caso das ameaças contra a China e sua política cambial, cujos efeitos podem ser contrários à pretendida valorização do Yuan pelos EUA. Isso porque os chineses reagiram à aprovação pelo Senado americano do projeto que pressiona a China a deixar sua moeda se apreciar: o Banco Central chinês alterou a banda cambial e adotou uma mais baixa para comercializar o yuan em relação ao dólar.
Além disso, o BC chinês advertiu que a decisão dos EUA de punir a China pelo valor do yuan complica os esforços do governo para liberar gradualmente a moeda de suas restrições e deixar que o yuan seja comercializado com maior liberdade.
É uma disputa entre gigantes, na qual os chineses já tinham sinalizado que não aceitarão que os EUA repassem a conta da crise via políticas de derretimento do dólar — que, de resto, causa prejuízos a todos os países. Mais uma vez, o que se espera é uma solução conjunta para a guerra cambial que se instalou na economia internacional.
Na Europa, sobram discursos e retórica, mas faltam ações. As promessas por hora são de recapitalização dos bancos. O presidente da Comissão Europeia, o ex-primeiro-ministro de Portugal José Manuel Durão Barroso, por exemplo, detalha um plano de resgate das economias europeias, mas diz que o plano só será acionado em “último caso”. Convém até questionar o que seria o “último caso” tamanhas são as dificuldades socioeconômicas que os europeus enfrentam.
Mesmo as cinco frentes de ação “interdependentes” que são mencionadas para conter a crise na região carecem de detalhamento concreto. São elas: responder aos problemas da Grécia; reforçar as barreiras de proteção da zona euro; promover uma abordagem coordenada de suporte ao sistema bancário; adotar políticas de estabilidade e crescimento; e definir políticas de governança econômica sólidas e integradas.
Mas, enquanto isso, as agências de risco seguem rebaixando as notas dos bancos europeus, ampliando a desconfiança e alimentando o medo de contaminação da zona do euro. Depois das baixas dos títulos de bancos ingleses e portugueses e da dívida da Itália, no início da semana, foram rebaixados os títulos dos grandes bancos espanhóis —entre eles, o Santander, terceiro maior banco brasileiro.
O ambiente, portanto, é de extrema dificuldade e de baixa articulação política para uma resposta conjunta, coordenada e eficaz aos problemas no horizonte econômico. Apegar-se ao receituário ortodoxo e aos cálculos matemáticos não será suficiente para enfrentar uma crise que, no fundo, no fundo, é também política. Quanto mais demorarem a perceber isso, mais duras deverão ser as medidas a serem tomadas.
José Dirceu, 65, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT
