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Delituoso

O ex-presidente tem ficado menor a cada gesto. É homem atormentado. Progressivamente se distancia do mundo real

 Lisboa – O ex-presidente Lula ultrapassou todos os limites da razoabilidade. Demonstrou a mais absoluta falta de escrúpulos ao abordar o ministro Gilmar Mendes, procurando coagi-lo a trabalhar pelo adiamento do julgamento do mensalão.

          Praticou chantagem explícita, insinuando que poderia “proteger” Mendes na CPMI do Cachoeira, que agora também é da Delta, politicamente por ele “controlada”. O ministro lhe disse para “ir fundo” nas investigações, no momento certamente mais azedo da conversa.

          Os líderes oposicionistas têm razão, quando acionam o Ministério Público Federal, acusando o ex-mandatário, que se julga mandatário eterno, de tráfico de influência, corrupção ativa e coação. Deveriam ter incluído, igualmente, a figura da obstrução de justiça.

          Áulicos demais, bajuladores em excesso, companheiros de espinha quebrada fizeram do antigo líder sindical uma pessoa de alma deformada, que se julga acima do bem e do mal, inatingível e inimputável. Durante seu consulado de oito anos, conseguiu diminuir o tamanho dos três poderes republicanos. Permitiu corrupção sem precedentes no executivo, colocou em prática o esquema de compra de apoio parlamentar que o STF irá julgar e buscou cooptar e humilhar o judiciário.

          Agora, em pleno governo Dilma Rousseff, arvora-se em eminência parda. Desafia a autoridade da presidente. Cria-lhe embaraços como a CPMI em curso, que fez nascer pelo ódio intransitivo que o move e que terminará atingindo sua própria gestão, a gestão de Dilma e o PAC.

          Seu silêncio – logo ele, que fala pelos cotovelos – é constrangedor. O ex-ministro Nelson Jobim, que cedeu seu escritório para a reunião de Lula com Mendes, falou, embora não tenha expressado a verdade dos fatos; suas várias versões do evento colidem gritantemente entre elas. O ministro Gilmar falou à revista Veja e confirmou suas palavras e sua única versão a todos os órgãos de comunicação que o procuraram a seguir.

          Apenas Lula silenciou. Seu instituto expediu nota fria, amarela, acanhada. Jobim, negando, admitiu implicitamente que houve a pressão sobre Mendes. Lula, calando, admitiu a culpa pelo erro gravíssimo que perpetrou.

          Pior de tudo, desgastou-se com os petistas moderados e maduros. Com certeza não deixou feliz sua sucessora.

          O tiro saiu pela culatra: a CPMI não teve como não quebrar, nacionalmente e não somente no Centro-Oeste, os sigilos da Delta, tornando inevitáveis as convocações de Fernando Cavendish e do governador Sergio Cabral. E a tentativa de jogar o julgamento do mensalão para as calendas terminou criando o sentimento de que esse escândalo será mesmo analisado pela Corte Suprema a partir de agosto.

          O ex-presidente tem ficado menor a cada gesto. É homem atormentado. Progressivamente se distancia do mundo real.

 

          *Diplomata, foi líder do PSDB no Senado