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Demorou muito, ex-ministro

Orlando Silva, mesmo não havendo provas contra ele, deveria ter pedido para sair. A questão é política e não jurídica

O que se esperava desde que apareceram as primeiras denúncias aconteceu: Orlando Silva deixou o Ministério do Esporte. Há uma semana, escrevi aqui que “Orlando Silva pode provar sua inocência fora do governo, evitando constrangimentos para Dilma às vésperas da Copa e das Olimpíadas”. Por que sangrar durante 12 dias se a hemorragia poderia ter sido estancada em 24 horas? Foi assim com ele, foi assim com os que o antecederam em dramáticas e prolongadas crises que levaram à inevitável demissão e será assim com os que, possivelmente, ainda virão.

Vigora no Brasil um entendimento equivocado que confunde inocência jurídica com inocência política. O ex-ministro, seu advogado, o PCdoB e outros que o defendem alegam que nada se provou contra ele. Têm razão, sob o ponto de vista jurídico. Há apenas a decisão de investigá-lo, nada há ainda que incrimine diretamente o ex-ministro. Talvez nem venha a ter.

Mas não é isso que tem de ser levado em conta para um ministro ser mantido ou não no posto. A questão jurídica é para os tribunais. Política e administrativamente, Orlando Silva é mais do que culpado. E não poderia mesmo continuar no ministério. O que deveria ter feito, desde o início, é pedir demissão para preservar a si próprio, a seu partido e ao governo.

O ex-ministro é culpado política e administrativamente porque não há a menor dúvida de que são muitas as irregularidades no ministério que chefiava. Há claríssimos indícios de corrupção e negar isso é impossível. Orlando Silva pode até não ter envolvimento direto com nada disso, mas se nada sabia, ou se sabia e nada fez, é culpado por incompetência, por omissão ou por conivência. Tanto faz, em qualquer situação não poderia continuar ministro.

Mesmo com tantos precedentes, ministros, com apoio de seus advogados e consultores, continuam repetindo a bobagem de que podem continuar nos cargos porque não há provas contra eles. Insistem nisso e acabam tendo de aceitar as evidências de que a questão não é jurídica, mas política. Desgastam-se, desgastam o governo, desgastam a presidente e acabam caindo.

Se há corrupção no ministério, o ministro tem de agir rapidamente e estancá-la. Ai mostra competência. Se deixar que prolifere, tem de reconhecer que não tem controle sobre sua pasta e pedir demissão. É incompetente para a função.

Se esse princípio fosse disseminado e visto com naturalidade, como é em outros países, as coisas ficariam mais fáceis. Não se trata de pedir demissão diante de qualquer acusação publicada na imprensa, ou de qualquer discurso de parlamentar oposicionista. Mas quando as evidências se somam e se acumulam, quando os fatos são gritantes demais, não há como escapar.

Foi assim com Palocci e com os ministros que caíram antes de Orlando Silva. Será com os próximos, a não ser que a presidente Dilma enquadre todos e lhes exija, com a firmeza que lhe é característica, que coíbam urgentemente a corrupção que existe em seus ministérios. Se não fizerem isso, são sérios candidatos a repetir Pallocci, Nascimento, Rossi, Novais, Silva, com sangria ou não.