Dilma: fim da lua-de-mel?

A presidente aprovada por 71% dos brasileiros, mas este talvez seja o topo da sua popularidade. E as escolhas equivocadas em nada contribuem para dias melhores frente

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Leonardo Attuch_247 – Já se passaram mais de 100 dias, de seis meses, enfim, de todas as marcas do que se convenciona delimitar como o período de lua-de-mel entre um governo e a sociedade. Dilma Rousseff atravessou esse breve interregno de forma notável. Com a sua “faxina”, ela já é aprovada por 71% dos brasileiros segundo pesquisa Vox Populi. Lula, imbatível, alcançou os 80% no fim do seu mandato. Mas a marca de Dilma supera a de antecessores, como Fernando Henrique Cardoso e o próprio Lula no início de seus segundos mandatos.

Dilma obteve sucesso com uma fórmula relativamente simples: continuidade na economia (estabilidade com crescimento), rigor nas nomeações e nas demissões da máquina pública (a sua “faxina”) e uma postura adequada ao cargo (compostura institucional). Com isso, ela agrada especialmente àqueles que julgavam que Lula atropelava as instituições com seu estilo de líder carismático sempre pronto a se colocar acima de todos os demais poderes.

Outro fator que também que contribuiu para a popularidade de Dilma nessa fase inicial de governo foi seu progressivo distanciamento em relação ao antecessor. Distanciamento que começou antes da posse, quando ela não reconduziu Celso Amorim ao Itamaraty e deu sinais de que seguiria uma política externa mais pragmática e menos ideológica, com respeito aos direitos humanos internacionais.

Havia quem enxergasse, na era Dilma, uma distensão em relação ao radicalismo do governo Lula. Tanto na política externa como também nas relações com os meios de comunicação.

Mas Dilma, ao chamar de volta Celso Amorim, pode estar dando um passo decisivo – e talvez irreversível – numa outra direção. O que ela ganha ao indicar para um ministério tão estratégico justamente o nome que menos agradaria aos comandantes das três Forças Armadas? E se a isso se soma a declaração do ex-presidente Lula (“não cabe aos militares gostar ou não de uma indicação”), qual é a mensagem? A de que Dilma partiu para o enfrentamento. Decidiu enquadrá-los. Agiu como VAR-Palmares. E por mais que tenha chamado os três comandantes para tranquilizá-los, dizendo que não haverá mudança na Lei da Anistia, uma crise na caserna talvez já tenha sido contratada.

Crise também no Congresso

A escolha de Celso Amorim também revela um padrão nas escolhas da presidente Dilma. Um estilo “aqui quem manda sou eu”. Franklin Martins e José Genoíno fizeram chegar à presidente a informação de que os militares estavam satisfeitos com a gestão de Jobim, cuja permanência era indefensável. Mas outros interlocutores também levaram nomes mais amenos como o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o do deputado Aldo Rebelo – um este um verdadeiro nacionalista, e também comunista, que conta com o respeito dos militares, ao contrário de Celso Amorim. Ou seja: se Dilma quisesse um bom negociador, para coordenar os três ministérios militares, teria Cardozo; se quisesse direcionar a área de Defesa à esquerda nacionalista, Rebelo seria a melhor opção.

O padrão foi semelhante ao da troca no Ministério de Relações Institucionais, quando Luiz Sérgio foi deslocado para a pesca. Os partidos se reuniram e o PT fechou questão em torno do deputado Cândido Vaccarezza, que é um hábil negociador. Em mais uma demonstração do estilo “aqui quem manda sou eu”, Dilma preteriu Vaccarezza e nomeou Ideli Salvatti. Gleisi Hoffmann foi também uma escolha pessoal da presidente Dilma.

Resultado: o clima hoje no Congresso Nacional é de tocaia. Várias raposas à espreita. Seis ministros do governo Dilma convocados a prestar esclarecimentos. Um ex-partido aliado, o PR, que é um “pote até aqui de mágoas”, e cujo ex-ministro, Alfredo Nascimento, diz que “não é lixo”.

Pode ser que Dilma não precise do Congresso Nacional e que o Brasil talvez não precise mais de Congresso Nacional e caminhe para uma democracia direta com dois pilotos – Dilma na gestão da máquina e Lula, solto para voar, na articulação com as massas.

Mas é uma experiência nova. Que pode ou não dar certo.

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