Dilma versus Temer: uma nova guerra em Brasília

Wagner Rossi, o nico ministro indicado pelo vice Temer, a bola da vez. E o clima em Braslia de tocaia

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Leonardo Attuch_247 – Dois meses atrás, o então ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, pegou o telefone e discou para o vice-presidente Michel Temer, a pedido da presidente Dilma Rousseff. Disse que todos os ministros do PMDB seriam demitidos se o partido apresentasse emenda ao projeto de Código Florestal. E afirmou ainda que a degola começaria pelo ministro da Agricultura, Wagner Rossi – que, localmente, em Ribeirão Preto, era um adversário histórico de Palocci. “Se é assim, é melhor então o PMDB entregar todos os cargos”, reagiu Temer, que também fez questão de disseminar o conteúdo da conversa.

Dias depois, em meio a uma crise que quase gerou o rompimento entre os dois principais partidos da base aliada, PT e PMDB, a presidente Dilma Rousseff e seu vice posaram juntos e sorridentes para uma foto na base aérea de Brasília, como se fossem dois pombinhos.

A verdade, no entanto, é bem outra. Dilma e Temer mal se suportam. Se dependesse da vontade de Dilma, que tentou emplacar Henrique Meirelles na chapa de 2010, ele não teria sido seu vice. Temer só chegou lá porque domina a máquina do partido e conseguiu alinhar todos – ou quase todos – os interesses do PMDB. E, uma vez no governo, fez do Palácio do Jaburu o muro de lamentações de todos os caciques do partido que não estão conseguindo nomear seus aliados em cargos estratégicos do governo federal. É para o Jaburu que acorrem, com frequência, nomes como Renan Calheiros, Eduardo Cunha, José Sarney e Henrique Eduardo Alves, entre outros. E o discurso de Temer sobre “repatir o pão” não tem sido ouvido no outro palácio brasiliense, o da Alvorada, onde reside a presidente.

Agora, nesta semana, fica evidente que o novo alvo da faxina presidencial se chama Wagner Rossi, o ministro da Agricultura, e justamente o único indicado pelo vice Michel Temer. Depois de Antonio Palocci, Alfredo Nascimento e Nelson Jobim, ele é a chamada “bola da vez”. E a demissão do seu secretário-executivo, Milton Ortolan, já foi uma medida preventiva. “Antes ele do que eu”, deve ter pensado Rossi.

Operação palaciana?

A crise no Ministério da Agricultura começou há duas semanas, quando o irmão do senador Romero Jucá, Oscar Jucá, caiu da Conab, a Companhia Nacional de Abastecimento, atirando. “Só tem ladrão ali dentro”, disse ele. Agora, nesta semana, duas reportagens sincronizadas. Veja denuncia a atuação de um lobista, Júlio Fróes, que distribuiria maços de dinheiro dentro Ministério e a Folha mapeia o loteamento de cargos na Agricultura, entre caciques do PMDB. É a senha para que a “faxina” continue e Dilma deve se dedicar a ela nos próximos dias.

A dúvida: tais histórias terão sido descobertas pelos jornalistas ou repassadas a eles por fontes palacianas?

O verbo e a verba

Há meses, um experiente político do PMDB, o ex-ministro Geddel Vieira Lima vem tentando alertar seus pares que política se faz “com o verbo e a verba”. E que o PT tentaria garrotear todos os espaços de arrecadação do PMDB na máquina pública. Sem a verba, portanto, o partido teria poucas chances nas eleições municipais de 2012. Segundo Geddel, o projeto do PT para o PMDB é semelhante ao do PSDB para o DEM – o de transformá-lo numa linha auxiliar. E o DEM é hoje um partido em extinção.

Claramente, os projetos do PT e do PMDB para 2012 são conflitantes. O primeiro enxerga a possibilidade de começar a emplacar um projeto hegemônico de poder, ganhando diversas capitais e abrindo espaço para a conquista de governos estaduais importantes, dois anos depois. O jogo do segundo é de resistência. E haverá aliança entre os dois partidos apenas onde ela for inevitável, como no Rio de Janeiro, onde o PMDB de Eduardo Paes é forte e o PT não tem lideranças expressivas. No resto do País, é guerra – e a mais importante delas será em São Paulo. Michel Temer apostará todo o seu futuro político na eleição de Gabriel Chalita, seja contra Marta Suplicy, candidata natural do PT, seja contra Fernando Haddad, candidato de Lula.

Clima de tocaia

O que é hoje o governo Dilma? Um relativo sucesso de público, mas nem tanto de crítica. Apesar da aprovação popular, há um ambiente de intranquilidade em Brasília. O clima no Congresso Nacional, segundo o experiente jornalista Fernando Rodrigues, é “de tocaia”.

O clima é de permanente crise política. Já caíram três ministros (Antonio Palocci, Nelson Jobim e Alfredo Nascimento), um foi rebaixado (Luiz Sérgio) e outro está na linha de tiro (Wagner Rossi). É muito para tão pouco tempo.

Nesse contexto, Michel Temer vive como um equilibrista. Precisa emplacar correligionários em cargos estratégicos, para que o PMDB possa se viabilizar nas eleições de 2012, mas enfrenta, do outro lado, uma presidenta de espírito guerreiro e guerrilheiro.

A mudança no Ministério da Defesa faz parte desse xadrez. Nelson Jobim planejou sua queda. E não fez isso sem o conhecimento de Temer. Será que a aposta do vice é uma crise institucional (e também nas casernas), na qual ele se apresentaria como uma espécie de moderador?

O jogo é cada vez mais complexo. E Dilma e Temer são adversários.

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