Duas acusações graves e uma suspeita procedente

E o relato de um episódio nada edificante no aeroporto de Orly

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Dois senadores e um ministro se saíram muito mal no fim de semana, a julgar por reportagens publicadas por duas revistas semanais e pela Folha de S. Paulo. Por motivos diferentes, mas com um denominador comum: as acusações contra eles contribuem para aumentar o desgaste das instituições e dos políticos. A favor dos três pode-se alegar a presunção de inocência. Mas lendo o que foi publicado não tem como pairar a suspeita de que nossos homens públicos estão, todos ou quase todos, envolvidos em corrupção.

Além dos dois senadores acusados claramente de corrupção e do ministro que teve seu patrimônio aumentado em 20 vezes em quatro anos, há também um episódio mais leve, que não é de roubo dos cofres públicos, mas que também deixa muito mal o personagem, o senador paranaense Roberto Requião, do PMDB. Sim, o senador que se apropriou do gravador de um repórter e o devolveu sem a gravação.

Vale à pena resumir o relato de Paloma Amado, filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, que não tem nenhuma razão para inventá-lo. Foi publicado no facebook e reproduzido na coluna de Ricardo Boechat, na IstoÉ: em 1998, enquanto seus pais estavam na sala vip da Varig no aeroporto de Orly, Paloma foi despachar as malas no guichê da primeira classe. Eram dez malas, pois o casal não pretendia mais voltar ao apartamento de Paris. A mulher do senador, que segundo Paloma “parecia uma árvore de Natal”, bateu no ombro dela, que vestia jeans e tênis, e disse que o guichê da classe turística era outro. Aí o senador falou, bem alto, que ela parecia que ia de mudança, como os retirantes nordestinos. Paloma engoliu, mas pouco depois Requião e a que parecia uma árvore de Natal quiseram cumprimentar Jorge e Zélia. Paloma, educadamente – segundo ela – disse que não. “Não mandei à puta que pariu, apesar de desejar fazê-lo”, disse ela.

O caso mostra a prepotência e a arrogância de Requião, características de muitos políticos que andam de brochinho na lapela para mostrar importância e se destacarem dos mortais. É um relato altamente desabonador para o senador, que tem algumas posições políticas à esquerda e prega a moralização da coisa pública, mas ainda não aprendeu a conciliar a teoria à prática.

Bem mais graves são as acusações feitas a dois outros senadores, o paraense Mário Couto, do PSDB, e o amapaense Gilvam Borges, do PMDB. Em reportagem de Leandro Fortes, muito bem documentada, a Carta Capital conta como Couto e mais alguns parlamentares e funcionários da Assembléia Legislativa do Pará desviavam dinheiro público manipulando o pagamento de pessoal. Montou-se uma quadrilha para isso, e uma das integrantes fez a delação premiada.

Na revista Época, Andrei Meireles relata, também com muitos dados, como Gilvam Borges e sua família desviaram recursos que deveriam ir para o atendimento à saúde de tribos indígenas. O relato é estarrecedor, embora não seja exatamente uma surpresa para quem conhece o senador, aliado de José Sarney no Amapá e que brevemente deverá perder o mandato para João Capiberibe, que havia sido impugnado, mas assumirá a cadeira que ganhou no voto.

As duas reportagens baseiam-se em investigações feitas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, mas, até que haja um julgamento, Couto e Borges podem alegar inocência. O problema é quando haverá um julgamento? O Supremo Tribunal Federal, foro privilegiado de ambos, levará anos e anos até chegar a um veredicto. O Senado, provavelmente, nem tomará conhecimento do caso, apesar da gravidade das acusações. O corporativismo parlamentar certamente falará mais alto, a comissão de ética do Senado não prima pela ética e, principalmente, porque alguns senadores raciocinam que hoje são eles, amanhã poderá ser eu. Melhor, pois, deixar assim mesmo.

O terceiro caso é o do ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci. Na matéria publicada originalmente pela Folha há apenas uma suspeita, uma insinuação de que há algo errado. Mas a dúvida levantada é pertinente: como, tendo recebido R$ 974 mil em quatro anos como deputado, Palocci comprou salas comerciais por R$ 882 mil e um apartamento por R$ 6,6 milhões, multiplicando por 20 seu patrimônio?

O ministro explicou que prestou consultorias nos últimos anos, mas não quis revelar a quem e por quanto. Aí é natural que aumentem as suspeitas, pois o melhor remédio para afastar denúncias improcedentes é a transparência. Não adianta alegar que as compras foram declaradas à receita, nem o ministro Sepúlveda Pertence, presidente da Comissão de Ética Pública da Presidência, dizer que "não nos cabe indagar da história das fortunas dos pobres e dos ricos que chegam a ministro de Estado". As suspeitas aumentam quando as respostas são desse tipo e porta-vozes do governo apressam-se a dar o caso por encerrado.

Como cidadão comum, Palocci poderia não revelar que consultorias foram essas, pois são negócios privados. O ex-ministro José Dirceu, por exemplo, não é mais parlamentar, nem ministro, e assim tem o direito de manter a privacidade de suas consultorias. Mas Palocci ocupa, na teoria, o terceiro mais importante cargo do Executivo, e na prática é mesmo o segundo, logo abaixo da presidente. Como homem público, não pode omitir a quem serviu nos quatro últimos anos, mesmo que não haja qualquer irregularidade nisso.

O episódio, sem dúvida, serve à luta política e a oposição, se for competente (o que, geralmente, não é) irá se aproveitar dele. Mais uma razão para os governistas não adotarem a postura do caso encerrado e prestar contas à sociedade.

A favor de Palocci há também dois fatores relevantes: o chamado “mercado” gosta muito do ex-ministro da Fazenda, e falar de variação patrimonial sem explicações entre políticos é o mesmo que mexer em casa de marimbondos. Muitos, mas muitos mesmo serão os ferroados.

Depende do civil

Forças militares israelenses mataram 14 palestinos que se manifestavam contra a ocupação de territórios da Palestina e da Síria. Civis continuam sendo mortos na Síria. A repressão à oposição é forte no Bahrein, nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita.

Por que o Conselho de Segurança da ONU acha que só deve proteger civis na Líbia?

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