Eleições e a crise da oposição

Para Sérgio Guerra, presidente do PSDB, a indicação de candidatura própria do PT é ação de caráter "autoritário" e "antidemocrático". Trata-se de um complexo paradoxo

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Como se não fossem suficientes as evidências de que a oposição atravessa uma séria crise de identidade, após perder três eleições presidenciais e assistir ao esfacelamento de uma de suas principais siglas de sustentação, o DEM, as eleições municipais deste ano deverão suscitar novas demonstrações do quanto anda carente da oferta de um projeto alternativo não só para o nosso país, mas também para nossas cidades.

Depois de o candidato tucano a prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), tentar reeditar a campanha do medo, declarando que a vitória do PT em São Paulo representaria um ameaça à democracia, agora foi a vez do presidente do seu partido, o deputado federal Sérgio Guerra (PE), distorcer o foco da campanha municipal. Usando o mesmo pretexto, Guerra acusou o PT e a presidenta, Dilma Rousseff, de terem feito "uma invasão ilegítima em Minas Gerais", após lançarem a candidatura do ex-ministro Patrus Ananias e, segundo ele, conferirem importância nacional à eleição da capital mineira.

Para Guerra, a indicação de candidatura própria do PT é ação de caráter "autoritário" e "antidemocrático". O obscurantismo das declarações, de associar o processo eleitoral a práticas antidemocráticas, expõe um completo paradoxo, já que as eleições servem justamente para fortalecer a democracia, ao permitir que os principais atores do jogo eleitoral, os eleitores, decidam sobre os destino de suas cidades.

Além disso, não é possível sequer atinar o que o deputado classifica como "invasão ilegítima": seria a participação legal de um candidato na disputa eleitoral da capital mineira, decidida após a ruptura da aliança com o atual prefeito Márcio Lacerda (PSB), que descumpriu acordo firmado anteriormente com o PT? Ou seria a presença da presidenta Dilma nos processos decisórios e no apoio às campanhas dos candidatos do PT e dos partidos da base aliada no Congresso Nacional? Tal afirmação equivaleria a dizer que o senador Aécio Neves (PSDB-MG), que apoia Lacerda, não poderia se empenhar em campanhas fora do reduto mineiro.

A queixa de Guerra refere-se ainda à decisão do PSD mineiro de retirar seu apoio a Lacerda para reforçar a coligação que sustenta a candidatura do ex-ministro Patrus. Guerra parece esquecer-se de que, para costurar a aliança entre o DEM e o PSDB, em São Paulo, impediu a candidatura do pré-candidato de seu partido à prefeitura de Salvador, Antônio Imbassahy, para apoiar o deputado ACM Neto (DEM-BA), que concorre na capital baiana.

Os questionamentos e insinuações sobre a legitimidade da participação da presidenta nas campanhas das principais capitais brasileiras, seguidos por grande parte da imprensa, só revelam o desespero daqueles que querem impedir a continuidade do fortalecimento do PT nacionalmente e sabem que a alta popularidade de Dilma, bem como a do ex-presidente Lula, pode alavancar o desempenho de seus candidatos nas urnas.

Porém, não podemos perder de vista o que realmente está, ou deveria estar, em cena neste momento: a discussão das plataformas de governo com propostas, projetos e metas para os municípios brasileiros. Está na hora, portanto, de a oposição superar a fase da mera desqualificação de seus adversários e das críticas aos governos atuais e dizer aos cidadãos ao que vem e o que pretende fazer para solucionar problemas e melhorar a qualidade da Educação, Saúde, mobilidade urbana, Habitação, Cultura e Lazer das cidades que pretende administrar.

Transformar as eleições municipais em disputa nacional, deflagrando muitas vezes as pretensões e os possíveis debates do pleito presidencial de 2014 —algo recorrentemente feito pela oposição—, além de um desserviço ao país, representa um desrespeito aos eleitores que, neste momento, têm interesse em discutir as questões urgentes das cidades onde vivem.

Em São Paulo, até agora, o deserto de ideias da oposição tem sido explicitado, sobretudo, pelo desempenho da candidatura tucana, que estagnou nas pesquisas e só cresce em índice de rejeição.

Já em Belo Horizonte, o candidato à reeleição ainda não foi capaz de demonstrar as razões por que pleiteia um segundo mandato, escorando-se em críticas a Patrus, ao governo federal e até mesmo a programas de transferência de renda essenciais para o combate à miséria em nosso país, como o Bolsa Família, do qual ele recentemente desdenhou, chamando de "esmolinha".

É fato que, nesse terceiro ciclo progressista que nosso país atravessa, inaugurado com o primeiro mandato do governo Lula, temos o compromisso de avançar nas mudanças e nas reformas que aprofundem o nosso desenvolvimento, com inclusão social, o que será facilitado se as políticas locais acompanharem esse objetivo.

A dificuldade da oposição em encontrar o tom das eleições municipais e de apresentar alternativas ao projeto que temos em curso é reveladora de que o seu discurso, sem projeto, não convence mais ninguém.

José Dirceu, 66, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT

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