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Governo e oposição

Inferir resultados com base nos números de hoje, além de prematuro, é irresponsável. Afirmar que um candidato obterá votos porque dispõe de estrutura partidária ou de tempo de TV é outra inverdade

Contrariando o pensamento dos que presumem que a eleição para a Presidência da República é um jogo que será disputado praticamente entre as duas tradicionais agremiações partidárias que desde a redemocratização vêm polarizando a cena politica brasileira – PT e PSDB  –, os números, a cada eleição, revelam surpresas. E, caso mantido o atual quadro de possíveis candidaturas, a tendência para a próxima eleição é de um segundo turno sem favoritos.

A análise das eleições presidenciais no Brasil, desde a de Collor até a que elegeu Dilma, evidencia que somente oito candidatos conseguiram superar a casa de 15 milhões de votos: Collor, FHC, Lula, Serra, Geraldo Alckmin, Marina Silva, a presidente Dilma e eu.

A grande extensão territorial e a falta de partidos com grande capilaridade não são supridas apenas com o tempo de televisão, como supõem alguns especialistas em eleições. Nas eleições de 2002, eu contava com pouco mais de 1 minuto de televisão e era candidato por um partido que, na totalidade dos estados brasileiros – à exceção do Rio de Janeiro –, não apresentou candidatos a governador com expressão. No entanto,  a diferença entre o número de votos que obtive, ficando como 3º colocado nas eleições, e os computados por José Serra, que seguiu ao 2º turno com Lula, foi de apenas 5%. O candidato do PSDB, além do apoio da máquina do Governo Federal, contava com dez vezes o meu tempo de televisão, uma sólida estrutura financeira de campanha e candidatos fortes aos governos estaduais. E nada disso impediu que a última pesquisa do Datafolha para essa eleição apontasse empate técnico entre nós.

Ressalte-se que os números iniciais de minha candidatura eram muito baixos. Meu nome alcançava visibilidade apenas no Rio de Janeiro e no Espírito Santo. E, após o início do horário eleitoral, mesmo com minúsculo tempo de televisão, cresci 1 ponto por semana, até  alcançar 18%, enquanto Serra estacionou em seu patamar, na casa dos 22%.

Portanto, inferir resultados com base nos números de hoje, além de prematuro, é irresponsável. Afirmar que um candidato obterá votos porque dispõe de estrutura partidária ou de tempo de televisão é outra inverdade.

Na eleição nacional, o eleitor vota descolado das questões locais, muitas vezes até em sentido oposto à sua escolha para o governo estadual ou para a Câmara Federal. O que define o voto da imensa maioria dos brasileiros na eleição presidencial é o sentimento da direção do País: se julga estar no caminho certo, o eleitor vota no candidato do partido do governo. Se o sentimento é negativo, vota pela mudança, em quem encarna o espírito de oposição.

Resta, pois, uma certeza nas eleições presidenciais: quem quiser disputar eleição sendo governo e oposição ao mesmo tempo corre o seriíssimo risco de perder voto dos dois lados e obter um fiasco nas urnas.