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João, o desgaste desta cena vale 95 segundos na tv?

Marqueteiro do PT, João Santana foi determinante na confecção de aliança com Paulo Maluf, do PP; tempo do partido pode fazer Fernando Haddad ter mais espaço que José Serra no horário eleitoral da tevê; mas isso vale perder Luiza Erundina, minar a militância e confundir o eleitorado?

João, o desgaste desta cena vale 95 segundos na tv? (Foto: Edição/247)

247 – O candidato Fernando Haddad acorda nesta terça-feira 19 com a maior crise política de sua campanha até aqui, depois de passar a manhã da segunda-feira 18 como grande vitorioso da pesquisa Datafolha do fim de semana, em que apareceu com cinco pontos porcentuais a mais do que no último levantamento – a maior taxa de crescimento entre os concorrentes. O ponto de inflexão aconteceu a partir da uma da tarde de ontem, em ponto, quando, nos jardins na mansão do ex-governador Paulo Maluf, ele e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva consumaram, entre apertos de mãos, sinais de positivo e sorrisos, a aquisição política de 1 mimuto e 35 segundos para o horário eleitoral gratuito do PT. O mercado político da minutagem eleitoral gratuita foi o único fator determinante para a aliança entre o PT de Lula e Haddad e o PP de Maluf. Não houve outro. Na cúpula do partido, o peso da opinião do marqueteiro João Santana, que notabilizou-se na reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva e na eleição de Dilma Rousseff, foi decisivo para que velhas convicções políticas fossem superadas em nome do pragmatismo. Ele não precisou, porém, enfrentar grandes resistências internas, uma vez que vários influentes dirigentes petistas estão mais preocupados com a proximidade do julgamento do caso Mensalão, no Supremo Tribunal Federal, do que com os rumos da campanha de Haddad em São Paulo. Essa velha guarda do partido, representada mais fortemente pelo ex-presidente da legenda José Dirceu, optou por acatar, sem óbices, todas as ordens de Lula, em lugar de promover reuniões que, noutros tempos, virariam madrugadas em acesas contestações. Para Santana, assim, bastou convencer o chefe que nele confia de olhos fechados.

A taxa de risco envolvida na busca pelo 1 minutos e 35 segundos do PP de Maluf, porém, não foi avaliada corretamente pelo marqueteiro e o sempre chamado presidente de honra do PT. O primeiro sinal de que a repercussão seria bombástica, mas com explosão detonada bem no centro das articulações partidárias imediatamente anteriores, foi dado pela ex-prefeita Luiz Erundina. Horas depois de selada a aliança com Maluf, ela acusou Haddad de tê-la deixado sem informação prévia sobre o movimento. Relutante, a princípio, em retomar a convivência com o PT, agora na forma de aliada, o acordo soou a ela como um alarme disparado em sua própria conscência. Aos 77 anos de idade, com uma carreira política vitoriosa e coerente, ela decidiu a dizer um potente "eu não aceito" que, nesta terça 19, bombeiros do PT e do PSB tentarão, em vão, ao que tudo indica, retirar de sua boca.

Enquanto Erundina marcava ênfase o seu protesto, espraiava-se pela militância a antiga pergunta sobre quais rumos, afinal, o velho e aguerrido PT de 32 anos de fundação quer seguir. As lições de éticas ministradas pelo governo Dilma, de um lado, recuperaram para as bases petistas parte do discurso perdido no estouro do caso mensalão. Mas o acordo relâmpago e estabanado com Maluf, feito à base da concessão de um cargo estratégico e repleto de verbas no Ministério das Cidades, teve o poder imediato de empanar os avanços empreendidos à base de altos custos políticos pela administração federal identificada com o partido. A presidente, afinal, é filiada.

O fato novo da sucessão paulistana gira em torno dos futuros 95 segundos no horário eleitoral gratuito. O marqueiteiro João Santana, que os perseguiu e obteve, terá de provar que o estrondoso desgaste valeu a pena. Conseguirá?