Jobim Cabeça de Pudim

Como Jobim não explicou a referência, buscamos refúgio na intriga e miramos nos quadros governistas do PT, que acusaram o golpe ao concluir que os idiotas só poderiam ser eles. Da próxima vez, ministro, desenha

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Isto aqui é mais um pedido de desculpas que qualquer outra coisa. E vai em nome de um país iletrado, incapaz de entender referências literárias. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, nomeou enfim os idiotas que perderam a modéstia, a quem ele se referiu durante celebração dos 80 anos de Fernando Henrique Cardoso. São os jornalistas, que lhes criticaram – a ele e FHC – durante o governo do tucano. Faz sentido, ainda mais quando o ministro explica a frase que seguiu a rodrigueana “os idiotas perderam a modéstia”.... “e continuam escrevendo para o esquecimento”, emendou Jobim, sem que percebêssemos, numa referência a Jorge Luis Borges.

Borges dizia que “los periodistas escriben para el olvido” e que os jornais são museus de minúcias efêmeras. Mas como Jobim não explicou a referência ao fazê-la (a exemplo do que fez ao citar Nelson Rodrigues), ignorantemente buscamos refúgio na intriga e miramos nos quadros governistas do PT, que, também de forma cândida, acusaram o golpe ao concluir, ofendidos, que os idiotas só poderiam ser eles.

Quer dizer, ninguém entendeu nada e não houve um que se prestasse a explicar o ministro, nem que no afã de mostrar que conhecia a referência borgeana. Não conhecíamos (ou não prestamos atenção) e, por isso, ofereço a Jobim a minha referência, em tom de desculpa e conselho. Chegamos, enfim, ao título deste texto, uma alusão ao Pudd’nhead Wilson, do Mark Twain.

Em resumo, David Wilson é um jurista cujos conhecimentos irão elucidar um segredo que permeia todo o livro, mas que é tido como um pateta na vizinhança por causa de um comentário despretensioso feito logo ao se mudar para a cidade onde se passa a história. A verdade é que ninguém ali tinha condições de sequer perceber a inteligência ou erudição de Wilson, tamanha a falta de conhecimento vigente no local. Estamos na mesma.

Por isso, ministro, toma cuidado nessas manifestações públicas. Ficou claro que não estamos preparados para as citações, menções e referências que costumam ornar com naturalidade os enigmáticos votos dos ministros do Supremo Tribunal Federal, que o senhor costumava frequentar. É um problema de educação, você sabe. Quando for aludir a obras do cânone literário mundial, portanto, avisa antes. Ou melhor, ministro, da próxima vez, desenha.

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