Lula, o Messias

Ex-presidente recita passagens bblicas e finaliza: "Que todo mundo v pro cu agora"

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Elieser Cesar_Bahia247 - No segundo e último dia de sua visita à Bahia, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou um tom messiânico, ao se reportar à conquista que mais gosta de lembrar em seus oito anos de governo: a ascenção de classe social de mais de 39 milhões de brasileiros. Ao discursar em Salvador, na solenidade de lançamento do Plano Safra da Agricultura e Pecuária da Bahia 2011/2012, o ex-presidente falou a uma plateia formada por políticos, empresários, produtores e trabalhadores rurais, além de representantes da agricultura familiar. Depois de lamber a cria – a herança social de suas duas gestões –, um Lula pastoral afirmou: "Nós queremos que todo mundo vá pro céu agora. Nós queremos ir pro céu vivos. Não venham pedir pra gente morrer pra ir pro céu, que a gente que ficar aqui mesmo".

Crente de si, Lula tem certeza de que a escalada dos pobres e miseráveis do Brasil para o reino do céu na Terra começou com seus dois mandatos com a mobilidade social que permitiu o acesso de um grande contingente de brasileiros da classe D para a nova e tão comentada classe C. "Foram mais de 39 milhões de pessoas que ascenderam de classe social; antes, esse país era governado para um terço da população e os outros dois terços eram condenados à pobreza como uma fatalidade de Deus", observou o ex-presidente para uma público que incluía o governador Jaques Wagner, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence, os senadores Walter Pinheiro (PT) e Lídice da Mata (PSB), militantes petistas e sindicalistas rurais.

Muito aplaudido e interrompido pelo coro de campanha "olê, olê, olá, Lula, Lula", o ex-presidente esgrimia um estilo messiânico-populista: "Não pensem que o pobre quer ser pobre. O pobre quer ser classe média e, se brincar, quer ser rico. Precisamos acabar com essa bobagem de que o pobre quer comer mal, quer comprar produto de segunda, quer andar descalço e sem dentes na boca. Isso é bobagem, como é bobagem dizer que o pobre vai ganhar o reino dos céus. Nós queremos ganhar o reino aqui na Terra".

Lula lembrou o ditado bíblico de que é mais fácil um camelo (não se trata do bicho, mas de uma corda de marinheiros) passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu para dizer que "o rico já tá no céu aqui". "O cara levanta de manhã todos os dias, come do bom do melhor e viaja para onde bem quer, este já está no céu", acrescentou. Este tipo de discurso toca fundo o eleitor fiel do ex-presidente, como um grupo de trabalhadores rurais do assentamento de Coroa Verde, em Barra do Choça, no sul da Bahia, que veio num ônibus para Salvador, mais para ver o ex-presidente em carne e osso do que para a solenidade de lançamento do Plano Safra da Agricultura e Pecuária da Bahia 2011/2012, como admitiu ao Bahia247 um dos integrantes da caravana,

Lula foi homenageado pelo muito que fez pela agricultura e pela pecuária na Bahia, conforme os organizadores do evento. O ex-presidente ganhou uma cesta com produtos rurais, dentre eles um litro de cachaça destilada, que fez o público rir ao ser mostrado pelo próprio agraciado. O presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura da Bahia (Fetag-Ba), Cláudio Bastos, lembrou que, nos oito anos do governo Lula, o investimento na agricultura familiar do Estado passou de R$ 2,4 bilhões para R$ 16 bilhões.

Porto e estaleiro para a Bahia

Lula disse que o Brasil é um país que não deve ter medo do crescimento na agricultura, porque tem mais terra, mais sol, mais água e gente com muita competência para trabalhar no campo. Ele afirmou, ainda, que no começo do seu primeiro mandato, o Banco do Brasil tinha desaprendido a emprestar o dinheiro para os pequenos produtores rurais, "primeiro porque, ao entrar no banco, o coitadinho já era suspeito de ser ladrão". Segundo o ex-presidente, essa cultura mudou nos seus mandatos, e os bancos oficiais passaram a emprestar dinheiro aos pequenos. De acordo com Lula, embora tenha crescido cinco vezes, o número de pessoas na região Nordeste que recorrem aos financiamentos do Programa Nacional da Agricultura Familiar ainda é pouco.

O ex-presidente disse que, desde que deixou o governo, tem viajado muito pelo mundo e que já esteve em mais de 20 países, de janeiro para cá. "Em todos os cantos, eu tenho orgulho de dizer o que acontece no Brasil. Dê R$ 10 a um pobre que, em meia hora, ele transforma em pão e leite para dentro de casa. Dê R$ 1 bilhão para o rico que ele transforma numa conta bancária para viver de juros. Muito dinheiro nas mãos de poucos é concentração de renda. Pouco dinheiro nas mãos de muitos é distribuição de renda", diferenciou.

Ao governador Jaques Wagner, o ex-presidente falou que a Bahia precisa de um grande porto e de um estaleiro. "Se Deus quiser, companheiro Wagner, você tem que fazer um grande porto aqui. Tem que sair o porto e tem que sair o estaleiro, Não é possível que com esse pré-sal e a quantidade de navios que precisamos produzir, a Bahia não seja premiada com esse estaleiro.

Visita à Bahia

Em seu giro na Bahia, Lula foi ontem a Santo Amaro da Purificação fazer uma visita a Dona Canô, a matirraca dos Veloso, de 103 anos, que convalesce de uma traqueobronquite; esteve no Hospital da Criança, em Feira de Santana, reuniu-se com líderes políticos da base aliada em Salvador e participou do lançamento do Plano Safra da Bahia. No final da manhã, embarcou para Recife.

Lançado em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), o Plano Safra da Agricultura e Pecuária da Bahia 2011/2012 prevê um investimento de R$ 4,2 bilhões, sendo R$ 3,3 bilhões para as operações de custeio, investimento e comercialização da agricultura empresarial e dos médios produtores e R$ 900 milhões para as operações da agricultura familiar, através do Programa Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf).

Mas nem tudo foi flores na visita de Lula à Bahia. Ela mereceu críticas do presidente dos Democratas no Estado, ex-deputado federal José Carlos Aleluia, em nota distribuída pela assessoria do DEM. "O governador Jaques Wagner não deveria ter restringido a visita do ex-presidente Lula, em Feira de Santana, apenas ao Hospital da Criança. Wagner deveria ter aproveitado e levado o seu companheiro petista ao Hospital Estadual Clériston Andrade. Ali pertinho, Lula iria conhecer a calamidade em que vive a saúde pública na Bahia", criticou Aleluia.

O líder oposicionista criticou também o roteiro da visita. "De Santo Amaro, Wagner e Lula deveriam ter dado uma esticada até Cachoeira e São Félix para ver a situação das obras do anel ferroviário, previstas desde o primeiro PAC, e que foram abandonadas para infelicidade da população local", alfinetou.

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