Não mexam conosco e com nossos amigos

Para Estados Unidos e países europeus, defesa dos direitos humanos é instrumento político

Uma coisa é condenar a violação de direitos humanos, ou abrir uma investigação para
apurar o desrespeito a esses direitos. Outra coisa é a manipulação política do tema para
prejudicar inimigos e adversários e proteger os amigos e aliados. O que os Estados Unidos e
países europeus têm feito, há anos, é manipular o tema em benefício de seus interesses. Os
países que defendem realmente os direitos humanos, como o Brasil, ficam sempre em
situação difícil ao terem de votar resoluções que, embora muitas vezes justas e corretas, são
na verdade instrumentos de política externa dos estadunidenses e seus aliados europeus. Não
foi à toa que aos 22 países que votaram a favor da resolução opuseram-se 21 – sete contra, 14
abstenções, além de 4 ausentes.

Não é difícil explicar. Há acusações sérias contra o Irã, por violações a direitos
humanos em sua acepção mais ampla, que vai além dos direitos políticos e civis. Por isso,
deveria ser encarada com naturalidade (inclusive pelo Irã) a designação, pela ONU, de um
relator para investigar essas acusações. O problema é que não é bem assim que a coisa
funciona e a seletividade de alvos faz com que as resoluções acabam servindo mais como
propaganda e pretextos para ataques do que para ter eficácia.

Há violações de direitos humanos em praticamente todos os países do mundo. Em uns
mais, em outros menos. Se morar decentemente, comer e ter assistência médica forem
considerados direitos humanos – e são -, poucos escapam. Mas, para efeito de raciocínio,
vamos limitar a questão apenas a genocídios, assassinatos e prisões por motivação política,
étnica ou religiosa, torturas e violências físicas e psicológicas. Não vamos nem considerar,
apenas para raciocínio, as condenações à morte como ofensivas aos direitos humanos.

Pois os Estados Unidos e alguns países da Comunidade Europeia só denunciam e
pedem investigações para as violações cometidas por países com os quais não têm boas
relações ou contra os quais pretendem tomar alguma medida política, econômica ou militar.
Ao mesmo tempo, protegem a si próprios e a seus amigos. Não precisamos voltar na História,
para falar no apoio a ditaduras que matavam e torturavam e nos assassinatos políticos na
América Latina, na África e na Ásia. Na repressão sangrenta na Irlanda. Ou no apoio ao
apartheid e no genocídio de timorenses. Os tempos presentes são suficientes.

Desde 1948, a ONU vem condenando Israel pela ocupação e pela implantação de
colônias civis em territórios palestinos, o que, inclusive, é categoricamente proibido pela
Convenção de Genebra. Israel ignora a ONU e há mais civis palestinos assassinados pelas
forças armadas israelenses do que por todas as ditaduras e monarquias árabes. Mas os
Estados Unidos não consideram que Israel viole os direitos humanos e até vetaram, em
fevereiro, resolução contrária a Israel aprovada por 14 a 1 no Conselho de Segurança.

Os próprios Estados Unidos não são investigados, apesar de manter porto-riquenhos e
cubanos como presos políticos e ter presos sem julgamento e torturados em Guantánamo, no

Iraque, no Afeganistão e em prisões clandestinas em outros países. Há inúmeros países que
desrespeitam gravemente os direitos humanos e não são objeto da ira estadunidense – afinal,
são aliados.

Talvez a demonstração mais clara da hipocrisia dos Estados Unidos e de países
europeus esteja relatada por um diplomata britânico que, de 2002 a 2004, foi embaixador no
Uzbequistão. No livro Diplomacia suja, Craig Murray mostra, com relatos circunstanciados,
como os governos do Reino Unidos e dos Estados Unidos fingiam – e, na verdade, ainda fingem
- não ver as atrocidades cometidas pelo governo uzbeque, chefiado, até hoje, pelo sanguinário
Islam Karimov. Havia, por exemplo, presos mortos em água fervente. Os governos dos dois
países sabiam o que acontecia naquela ex-república soviética na Ásia Central, mas relevavam
por considerarem Karimov um aliado na luta contra o “terror”.

Murray deixou a carreira por causa do que viveu e viu no Uzbequistão e no Foreign
Office, em Londres. Ele acusa o Ocidente de “perder suas referências morais de tal forma que
a máquina governamental, e as pessoas que nela trabalham, enveredou por uma espécie de
desprezo pelo indivíduo”. E vai além: “Os nazistas foram mais longe nesse caminho, mas é
inegavelmente o mesmo caminho que os nazistas trilharam. Para mim, o mais espantoso foi
ver meus colegas americanos e britânicos, pessoas comuns e decentes, marcharem, sem
discutir, por essa rota”.

Não há notícias de um relator especial para o Uzbequistão. Entre outros.

Concorrência

A disputa entre Estados Unidos, França e Suécia para vender caças ao Brasil vai perder
a graça. Será muito mais interessante para esses países vender aviões militares à Líbia, cuja
frota aérea foi destruída por eles mesmos a pretexto de defender civis. Como no Iraque e na
Sérvia, para falar de exemplos recentes, também haverá muitos e polpudos contratos para
reconstruir prédios e infraestrutura na Líbia.

Cautela

Algum banco privado contrataria o ex-deputado Geddel Vieira Lima para ser vice-
presidente de Pessoa Jurídica? Há razões para suspeitar que Geddel não seria contratado nem
para caixa de agência. A concessão ao PMDB mostra que, apesar dos maiores cuidados do
governo Dilma, as empresas públicas, com a Caixa Econômica, ainda precisam se livrar das
nefastas influências partidárias.

Falatório

Renomados advogados mais antigos, que convivem ou conviveram com dezenas de
ministros do Supremo Tribunal Federal desde os tempos dos governos militares, lamentam

que a velha norma de que juiz só fala nos autos tenha sido abandonada. Esses advogados são
do tempo em que ministros do STF nunca faltavam às sessões para fazer palestras por todo o
país e viajar ao exterior em período de trabalho. E também não se ofereciam para dar
entrevistas polêmicas.

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