Não roubar, não cobiçar as coisas alheias

Alguns políticos que se proclamam paladinos da lei de Deus, mas que a violam todos os dias, é que deveriam pedir desculpas ao país

Gilberto Carvalho é ministro, e ministro importante no governo. Tem de ter cuidado com o que fala e não pode dizer tudo o que pensa. Precisa medir as palavras e submeter suas posições pessoais ao governo ao qual serve, assim como a nova ministra das Políticas para as Mulheres, não tão importante quanto ele, Eleonora Menicucci. Ambos provocaram a ira de evangélicos e católicos porque disseram o que pensam. E se até a presidente Dilma Rousseff, então candidata, reformulou posições que sempre teve para não perder votos de evangélicos e católicos, como admitir que ministros agora coloquem em risco a governabilidade?

É assim que funciona. Católicos e evangélicos são maioria no país e alguns de seus representantes defendem enfaticamente suas posições políticas e comportamentais. Como o governo precisa do apoio político deles e dos votos de seus seguidores nas eleições municipais, tem de reprimir declarações de ministros e colocar na geladeira medidas já adotadas por vários países, mas que muitos cristãos consideram ferir a lei de Deus e a Bíblia. Pelas heresias proferidas, Gilberto teve de pedir desculpas, Eleonora adotou o silêncio obsequioso.

Mesmo tendo pedido perdão publicamente e se explicado aos parlamentares evangélicos, Gilberto Carvalho nada disse de errado. Pelo contrário, acertou em cheio. Ele disse o que quem não é ministro, nem precisa de votos de fundamentalistas cristãos, pode dizer: os que não concordam com as posições conservadoras e atrasadas defendidas por algumas igrejas – não todas – têm mesmo de enfrentá-las e combatê-las. Nunca com violência, ou prepotência, mas com a disseminação de ideias contrárias, o que é normal e legítimo em uma sociedade democrática e, embora muitos não queiram, uma sociedade laica.

A disputa pela hegemonia na sociedade é legítima quando não são usados meios ilegítimos, como a imposição e a chantagem. O mesmo direito que evangélicos e católicos têm de combater a legalização do aborto, têm também os que defendem a medida. Não é o fato de a Igreja Católica ser contra a camisinha que pode impedir o governo de recomendar seu uso à população – e use quem quiser. Igrejas podem proibir casamentos de pessoas do mesmo sexo para seus fieis, não para toda a população. Quem quer seguir os preceitos religiosos, tem o direito de segui-los. Mas não de impor esses preceitos a todo um país.

Se os que têm ideias, crenças e convicções políticas e comportamentais diferentes das defendidas por algumas igrejas querem vê-las vitoriosas na sociedade, têm de se organizar e lutar por elas na sociedade. Os que não concordam com o conservadorismo e com o atraso pregado por alguns segmentos religiosos não podem ter medo das reações histéricas de alguns políticos que se proclamam cristãos e defensores dos “bons” costumes, mas são ricos graças à corrupção e não se intimidam diante de alguns pecados capitais e mandamentos da lei de Deus. Devem achar que lendo a Bíblia, orando nos cultos ou rezando nas missas e ainda por cima combatendo o direito ao aborto, as camisinhas e os homossexuais, estão perdoados de tanto violar, entre outros, o sétimo e o décimo mandamentos.

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