O filho de FHC: a verdade escondida era mentira

Durante oito anos, a grande imprensa fez um pacto de silncio para no revelar que FHC tinha um filho fora do casamento. Agora, descobre-se que aquele tabu, que tantos se esforaram em preservar e ajudou lobistas a ganhar dinheiro, era falso

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Leonardo Attuch_247 – Em 1994, eu era um repórter em começo de carreira e trabalhava na sucursal brasiliense da revista Veja. Cobri o Plano Real e sua consequência imediata: o lançamento de um foguete supersônico, chamado Fernando Henrique Cardoso, à presidência da República, lançado com apoio explícito de praticamente todo o PIB nacional e da chamada grande imprensa. FHC era, como é até hoje, uma simpatia. Tratava os jornalistas que o acompanhavam como torcedores – e muitos de fato eram. Sérgio Motta, o Serjão, era o oposto: o trator, o “bad cop”, o cara que resolvia qualquer encrenca – mais pela força, do que pelo jeito.

Meu primeiro conflito na profissão ocorreu com ele: Serjão saiu gritando aos berros do comitê tucano, e de dedo em riste contra mim, porque desconfiava que eu estaria caminhando em território proibido. E insinuava que podia demitir qualquer um, em qualquer redação, pois já havia combinado o jogo com os patrões. Reza uma lenda que Serjão gostava de dizer que colocaria todos os barões da grande imprensa de joelhos diante dele – o resto é melhor não contar aqui.

De fato, eu estava fuçando em coisas perigosas. Atendendo ao pedido de um dos editores da sucursal da Veja, fui a um hospital em Brasília em busca do prontuário da internação da jornalista Miriam Dutra e do nascimento de seu filho Tomás. Naquele momento, Brasília inteira sabia que FHC tinha um caso fora do casamento com a jornalista da Globo. Era o chamado segredo de Polichinelo. Mas aquela era uma apuração destinada ao fundo do baú – mesmo que eu conseguisse o documento, ele não seria publicado. Era algo para ser guardado e usado apenas em caso de emergência. Se um veículo de comunicação publicasse algo, todos fariam.

Mas ninguém pretendia arruinar ali, no nascimento, uma candidatura presidencial tão promissora. Já era claro que havia um pacto de silêncio, liderado pela própria Globo, que deslocou Miriam Dutra para Lisboa, onde ela foi devidamente escondida. O curioso foi esse mesmo pacto ter sido preservado durante oito anos de governo FHC e mantido até a morte de Ruth Cardoso. Especialmente porque esse privilégio não foi concedido a nenhuma outra figura pública – nem no Brasil, nem no mundo. Basta citar os casos de Lula, que teve Lurian, de Fernando Collor, de Orestes Quércia e de muitos outros – há poucos meses, o ex-governador da Califórnia, Arnold Scwarznegger, teve de reconhecer um filho extraconjugal.

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Com FHC, foi diferente. O segredo foi mantido pela imprensa até a morte de Ruth Cardoso e ele só reconheceu a paternidade de Tomás, em 2009, num acordo registrado num cartório em Madri.

Aqui no Brasil, um único jornalista decidiu romper o pacto de silêncio. Foi Palmério Doria, editor da revista Caros Amigos, que, em 2000, publicou a capa: “Por que a Imprensa esconde o filho de oito anos de FHC com a repórter da Globo?”. Grande repórter, Doria é autor do livro “Honoráveis Bandidos”, sobre o clã Sarney, que, recentemente, esteve entre os mais vendidos do País.

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Para escrever sua reportagem, Doria resolveu procurar os diretores de redação de várias publicações. Otávio Frias Filho, da Folha, disse que o jornal “não publica assuntos de ordem afetiva enquanto pelo menos uma das partes não se manifestar”. A Editora Abril, por sua vez, se recusou a vender a foto que possuía de Miriam Dutra. Mario Sergio Conti, diretor de Veja, disse o seguinte, aos berros, ao jornalista: “Eu não sou da sua laia; leve a sua calhordice até o fim”. Augusto Nunes, então na Zero Hora, falou a verdade: disse que todos os jornais tinham a história e que, se um desse, todos dariam. Aluizio Maranhão, do Estadão, afirmou que não havia provas e que, portanto, o jornal não tinha nenhuma matéria na gaveta. Hélio Campos Mello, da Istoé, utilizou o mesmo argumento.

Mesmo depois da publicação da reportagem de Caros Amigos, o caso não foi repercutido por nenhum outro veículo de comunicação. Enquanto isso, pelo menos um grande lobista de Brasília, ligado à família da jornalista, aproveitou o sigilo em torno do caso para realizar grandes negócios no mandarinato tucano.

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E agora, de repente, descobre-se que todos foram feitos de idiotas: o próprio FHC, os barões da imprensa que preservaram o caso e os jornalistas que se autocensuraram. Goebbels dizia que uma mentira mil vezes repetida se torna verdade. No Brasil, descobre-se que uma verdade mil vezes ocultada era apenas uma mentira.

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