O mensalão na hora da verdade
A menos de 15 dias para o início do “julgamento do século”, cresce o suspense em Brasília e réus como José Dirceu, Marcos Valério e Roberto Jefferson poderão tomar atitudes surpreendentes
José Dirceu, apontado como chefe da quadrilha do mensalão na denúncia formulada pela Procuradoria-Geral da República, acaba de voltar de um refúgio em Passa Quatro, sua cidade natal, no sul de Minas, onde foi buscar refúgio e “colo de mãe”. Lá, certamente refletiu sobre uma possibilidade que tornaria o julgamento histórico: a de que repita Fidel Castro em Moncada e faça sua própria defesa oral. Afinal, além de símbolo e força máxima do PT que chegou ao poder em 2003, Dirceu é também advogado.
Delator e detonador da crise, o algoz do ex-ministro da Casa Civil, Roberto Jefferson, também refletiu muito nos últimos dias. Não apenas em função do processo, mas também porque recebeu uma notícia trágica: a de que sofre um câncer no pâncreas, com alto índice de letalidade. Jefferson, que tem uma personalidade teatral, poderá também transformar o julgamento no grande ato de sua existência. E já andou confidenciando que foi um erro não envolver o ex-presidente Lula na denúncia. Como Dirceu, ele é também advogado.
Refugiado em sua mansão em Belo Horizonte, o empresário Marcos Valério de Souza, dono das agências de publicidade DNA e SMPB, teve uma boa notícia para comemorar na semana que passou: o Tribunal de Contas da União validou seus contratos de publicidade com o governo federal. Essa decisão contribui para eliminar, por exemplo, o crime de peculato, uma vez que não haveria recursos públicos no mensalão – apenas empréstimos bancários. Ainda assim, consta que ele também estaria ameaçando envolver Lula no processo.
Todos esses três personagens poderão ter comportamentos totalmente imprevisíveis no julgamento do mensalão. O único réu sobre quem é possível prever uma atitude coerente é o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares. Seu advogado, Arnaldo Malheiros, já mandou avisar que “o dedo de Delúbio não vai endurecer”. Ou seja: delator, ele nunca foi, nem nunca será.
Na reta final do processo, cresce a tensão em Brasília e os ministros do Supremo Tribunal Federal também terão o desafio de provar que não se submetem a nenhum tipo de pressão, seja para condenar, seja para absolver.