O que está por detrás da aceitação das diárias pela ministra Ana de Hollanda

Nos Estados Unidos, casos de desvios de verbas costumam ter soluo la Taleban, lembra Cludio Tognolli

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247, Cláudio Julio Tognolli – Descobre-se nesse fim de semana que, em quatro meses, a ministra da Cultua, Ana de Hollanda, recebeu cerca de R$ 35,5 mil por 65 diárias, sendo que a agenda dela não registra compromisso oficial em, no mínimo, 16 desses dias. O custo em passagens aéreas foi de R$ 17,3 mil. A ministra ficou em Brasília em no máximo 4 dos 17 fins de semana desde a posse. Sua assessoria diz que ela não devolverá a grana.

No Brasil é outra história, mas pelo mundo esse tipo de coisa costuma ter desfechos bastante comentados. Tome-se, por exemplo, os Estados Unidos. A tradição norte-americana para portentos de desvio de verbas costuma ser meio talibanesca. Costumam largar o osso de maneira a jamais deixar dúvidas. E engolem o próprio orgulho de uma maneira também kamizake. Veja você o caso do ex-secretário do tesouro da Pensilvânia, Robert Budd Dwyer: na manhã branca de 22 de janeiro de 1987, acusado de desviar verbas públicas, convocou uma coletiva de imprensa e meteu-se um tiro de Magnum 357, a arma do Dirty Harry, no céu da boca. Saca o berro calmamente, de um envelope pardo, e mete-o goela abaixo. Se você tiver estômago, a cena completa está aqui

http://snardfarker.ning.com/video/budd-dwyer-suicide

O primeiro secretário de defesa dos EUA, James Vincent Forrestal, não gostou de quando o então presidente Truman criticou-lhe a pasta. E olha que Forrestal ainda é um herói nacional: tanto que o primeiro porta-aviões dos EUA, lançado ao mar em 1954, leva-lhe o nome, USS Forrestal. Demitido do cargo, por Truman, em março de 1954, a auto-crítica de Forrestal levou-o a uma internação no Hopsital Naval de Bethesda. Forrestal, um empertigado profissional, não era homem de levar desaforo pra casa: em 22 de maio, com dois meses de internação, resolveu pular do décimo-sexto andar do hospital.

Não se sabe se nossos políticos brazucas sofrem de alta baixa-estima ou baixa auto-estima. Seja qual for a determinação pessoal de cada um, em quem eles atiram, ou quem jogam pela janela, é sempre a imprensa – essa imbatível Geni, tão espontânea, sempre tão inevitável. Veja você que o Brasil é o país do mundo em que mais se processam jornalistas, segundo a ONG Artigo 19, com base em pesquisa, de 2007, feita pelo jornalista Márcio Chaer. Os dados dessa fúria anti-midiática hoje são piores. Estima-se que hoje sejam mais de cinco mil jornalistas brazucas processados em ações civis. A divulgação dos dados atuais é vetada pelas entidades de classe dos donos de mídia – sob a alegação genérica de que o número contribuiria, arcangelicamente, para a queda do valor das ações de mercado dessas empresas.

Lá eles se matam. Aqui eles tentam matar a imprensa.

É por isso que políticos brazucas queimados ao osso, porque metidos em sinecuras, ou enrascados até os rabos em despudores públicos, entram num estado de bonomia quando acusados pela imprensa. Sabem que não vai dar em nada. E ainda podem contar com a submissão abjeta da canga oligárquica que habita algumas redações – de resto, os jornalistas que compõem a “Máfia do Dendê”, fundada por Gilberto Gil e Caetano Veloso.

Veja você as gabolices que Anna de Hollanda, ministra da Cultura, anda afetando: não investiga as exigências (inexpressas a público, é claro...) feitas pelo seu staff, que quer ver a máquina andando como sempre. Isto é: mantendo os escândalos de clonagens de músicas no Ecad, alimentando as mamatas, legais mais imorais, que concedem milhões públicos, via Lei Rouanet, a projetos caducos de artistas já consagrados. Tudo isso deu em nada e em nada vai nadar.

Sabe por quê? Porque os políticos brasileiros sabem que o legal é atirar na boca da imprensa ou jogá-la pela janela: temos o Dwyer e o Forrestal que merecemos. A irmã de Chico Buarque logo aprendeu que mamar nas tetas da vaca profana das diárias nunca deu em nada. Vide o atual episódio da diárias recebidas para ela trabalhar no Rio, onde mora. Ela secunda um comportamento do deputado federal Francisco Everardo Oliveira (PR),o Tiririca. No começo de 2011, além de contratar dois humoristas como assessores parlamentares com salários de R$ 8 mil, o deputado mais votado do Brasil (1,3 milhão de votos) pediu reembolso à Câmara por despesas de R$ 971 após passar alguns dias no Porto d’ Aldeia Resort, “hotel que fica em meio a dunas, com piscina e vista para o mar” em Fortaleza. O parlamentar só poderia pedir reembolso de atividades vinculadas à atividade parlamentar. A imprensa cearense, entretanto, afirma que, entre 19 e 21 de março, Tiririca esteve em Fortaleza “para visitar parentes”. A assessoria do deputado não explicou qual foi a atividade que Tiririca.

Em janeiro de 2010 o jornal "Correio Braziliense" denunciou que “"em vez de gastarem recursos da própria verba indenizatória, os senadores Ideli Salvatti (PT-SC), José Nery (PSOL-PA), Jefferson Praia (PDT-AM) e Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) preferiram visitar os estados de origem com o dinheiro extra das diárias pagas nas missões oficiais em 2009”.

Não cobrem Anna de Hollanda: ela simplesmente aprendeu as regras do jogo. Ostras produzem pérolas, decorrentes de irritações específicas: Anna de Hollanda aprendeu a produzir a desfaçatez.

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